O Rio São Francisco nasce em Minas Gerais, corta a Bahia de ponta a ponta e, há décadas, é o único caminho de água permanente para milhões de nordestinos. Agora, por meio de uma gigantesca obra de engenharia, esse mesmo rio alimenta reservatórios, cidades e comunidades rurais em quatro estados que historicamente convivem com a seca: Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte.
O objetivo do PISF — Projeto de Integração do Rio São Francisco — é levar água do rio a 12 milhões de pessoas em 390 municípios no Ceará, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte, estados historicamente vulneráveis à seca. Com 477 quilômetros de extensão divididos entre o Eixo Norte e o Eixo Leste, o empreendimento é gerido pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR) e é considerado a maior obra de infraestrutura hídrica já construída no Brasil.
A captação no Eixo Norte começa no município de Cabrobó, em Pernambuco, diretamente no leito do São Francisco. De lá, a água é empurrada por estações de bombeamento sucessivas — em Terra Nova e Salgueiro, também em Pernambuco — até vencer cerca de 180 metros de desnível, altura equivalente a um prédio de 60 andares. O percurso segue pelos reservatórios Tucutu e Caiçara, este último em São José de Piranhas, na Paraíba, funcionando como ponto de distribuição para diferentes direções do Nordeste.
O empreendimento abrange a construção de 13 aquedutos, nove estações de bombeamento, 28 reservatórios, quatro túneis, nove subestações de energia elétrica em alta tensão e 270 quilômetros de linhas de transmissão. Toda essa estrutura garante que a água chegue tanto a sistemas urbanos de abastecimento quanto a comunidades rurais espalhadas ao longo dos canais.
A partir do reservatório Caiçara, o Ramal do Apodi — com extensão de 115,5 km e constituído por diversas obras — avança em direção à Paraíba, ao Ceará e ao Rio Grande do Norte. No quilômetro 30 desse ramal, em Cachoeira dos Índios (PB), a vazão se divide: metade segue pelo Ramal do Salgado rumo ao Ceará; a outra metade atravessa o Túnel Major Sales até chegar ao reservatório Angicos, no Rio Grande do Norte.
A obra do Ramal do Apodi beneficiará 750 mil pessoas e deve entrar em operação em 2026, ampliando a segurança hídrica no semiárido. Já o Ramal do Salgado, com cerca de 34 km de extensão, vai beneficiar 4,7 milhões de pessoas em 54 cidades cearenses, transportando água do São Francisco desde o Ramal do Apodi, na Paraíba, até o leito do Rio Salgado. Isso deve reduzir em 150 km a viagem das águas até o açude Castanhão.
Os primeiros resultados concretos já são visíveis. O açude de Boqueirão (PB), que abastece Campina Grande e outras 18 cidades do Agreste, beneficiando 1 milhão de pessoas, vem recebendo recarga das águas da transposição do Rio São Francisco desde 18 de abril de 2017, evitando o colapso hídrico da região. Na época, o açude acumulava menos de 3% de sua capacidade.
Por meio dos Projetos Básicos Ambientais, exigências do processo de licenciamento, o programa beneficia diretamente 294 comunidades rurais, entre elas 12 quilombolas, 23 etnias indígenas e 9 assentamentos do INCRA. Nessas localidades, a ampliação do acesso à água tem significado mais dignidade, segurança alimentar e oportunidades de geração de renda.
O horizonte do projeto também aponta para além dos quatro estados já atendidos. Inserido no Eixo Oeste da transposição, um novo estudo pretende conectar o reservatório de Sobradinho, localizado na Bahia, às bacias dos rios Piauí e Canindé. O impacto esperado é significativo, com potencial para beneficiar cerca de um milhão de pessoas, não apenas suprindo necessidades básicas de água, mas também promovendo o desenvolvimento econômico e social da região.
Para o ChicoSabeTudo, baseado em Paulo Afonso — cidade baiana às margens do São Francisco —, acompanhar essa obra é também olhar para o próprio quintal. O rio que banha a cidade e alimenta a usina de Paulo Afonso é o mesmo que, agora canalizado e bombeado por centenas de quilômetros, chega em forma de esperança a quem nunca teve água na torneira.







