Para produzir um quilo da carne do sururu, é preciso processar entre 8 e 20 quilos do molusco ainda na casca. O trabalho é minucioso, exige paciência e, por décadas, foi feito às margens da Lagoa Mundaú, em Maceió, em condições precárias — sob chuva, com fogões improvisados feitos de latas de tinta e pó de serra como combustível, muitas vezes com crianças ao lado.
Esse era o cotidiano das marisqueiras do bairro Vergel do Lago antes de 2017, quando nasceu a Cooperativa de Marisqueiras Mulheres Guerreiras (Coopmaris). A cooperativa nasceu de um projeto que uniu ONGs, universidades e outras instituições para transformar aquela realidade. Surgida às margens da Lagoa Mundaú como forma de organização para tirar as marisqueiras da informalidade, a Coopmaris conta hoje com mais de 40 mulheres cooperadas, que mantêm a tradição viva e buscam ocupar novos espaços.
A cooperativa passou a funcionar em um prédio reformado e equipado, com câmara frigorífica e paredes revestidas, financiado por recursos de ações civis públicas do Ministério Público do Trabalho. O espaço foi dimensionado para viabilizar o processamento diário de 1.800 kg de sururu bruto, com meta de produção máxima de 7 toneladas por mês de filé processado e certificado.
Mas nem só de estrutura física se constrói uma cooperativa. Mesmo com uma sede ampla e moderna, a cooperativa permaneceu inoperante durante algum tempo por falta de adequações exigidas pela vigilância sanitária. Foi então que a Sicredi Expansão, por meio de seu Fundo Social, entrou em cena com um investimento de R$ 15 mil para instalação de pias, torneiras, sistemas de ventilação e portas de alumínio, permitindo a abertura oficial do local.
A iniciativa também combateu um problema histórico na cadeia produtiva do sururu. Havia anos que o trabalho infantil era identificado desde a cata do molusco no fundo da lagoa até sua despinicagem. O apoio à cooperativa surgiu com o objetivo de que as marisqueiras pudessem incrementar a renda familiar ao assumir a etapa da comercialização, normalmente controlada por intermediários, e ao melhorar as condições de trabalho, habitualmente precárias.
Segundo informações divulgadas pela fonte original, o SESCOOP/AL promoveu oficinas com a nutricionista Maria Helena Menezes, que resultaram em novos produtos: farofa de sururu, sururu desidratado, bolinhos de camarão, croquete de sururu com massa de macaxeira e biscoito de sururu com ervas. A diversificação amplía as possibilidades comerciais e agrega valor ao molusco, patrimônio imaterial da gastronomia alagoana.
Em relação aos mercados, uma novidade recente é relevante. O sururu deverá chegar ao prato de estudantes da rede pública municipal de Maceió. A iniciativa fortalece a economia local e consolida a Coopmaris como fornecedora para a Prefeitura, em um projeto piloto que vai atender cinco escolas municipais com 280 kg do produto por mês, gerando cerca de R$ 13 mil mensais para a cooperativa.
A sazonalidade, porém, segue sendo um obstáculo severo. O sururu é sazonal e sensível à variação de salinidade da lagoa, afetada por chuvas intensas e esgoto não tratado. Durante o inverno, o molusco não sobrevive e a pesca praticamente desaparece até setembro. Segundo informações divulgadas pela fonte original, nesse período as cooperadas vivem do pouco sururu congelado e, quando o estoque se esgota, muitas recorrem a trabalhos de faxina para sustentar a família.
E há uma lacuna de proteção social que agrava esse cenário. Enquanto pescadores artesanais têm acesso ao Seguro-Defeso durante o período de paralisação, as marisqueiras ficam de fora. Foi apresentado na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 596/25, que inclui os coletores de mariscos, crustáceos e moluscos entre os beneficiários do seguro-defeso — benefício no valor de um salário mínimo mensal, devido aos pescadores artesanais durante o período de reprodução das espécies. Com a mudança, as marisqueiras passariam a ter direito à renda temporária durante a paralisação obrigatória da atividade pesqueira.
Para a presidente da cooperativa, Vanessa dos Santos Silva, o caminho percorrido já é motivo de orgulho. "Nossa vida mudou demais depois que passamos a trabalhar na cooperativa. Nosso trabalho ficou bem mais fácil, bem mais leve, porque todas as cooperadas estão trabalhando e ajudando umas às outras", disse Vanessa. O desafio agora é garantir que essa mudança se aprofunde — com novos mercados, novas políticas públicas e o reconhecimento que esse trabalho, por tanto tempo invisível, sempre mereceu.







