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Trabalho invisível que virou cooperativa: como 30 marisqueiras mudaram sua história às margens da Lagoa Mundaú

A Coopmaris tirou dezenas de mulheres da informalidade e do trabalho precário para um modelo de produção com higiene, renda e dignidade — mas ainda enfrenta desafios de mercado e proteção social.

Redação ChicoSabeTudo
29 de junho, 2026 · 16:54 4 min de leitura
Marisqueiras da Coopmaris processando sururu na sede da cooperativa em Maceió
Marisqueiras da Coopmaris processando sururu na sede da cooperativa em Maceió

Para produzir um quilo da carne do sururu, é preciso processar entre 8 e 20 quilos do molusco ainda na casca. O trabalho é minucioso, exige paciência e, por décadas, foi feito às margens da Lagoa Mundaú, em Maceió, em condições precárias — sob chuva, com fogões improvisados feitos de latas de tinta e pó de serra como combustível, muitas vezes com crianças ao lado.

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Esse era o cotidiano das marisqueiras do bairro Vergel do Lago antes de 2017, quando nasceu a Cooperativa de Marisqueiras Mulheres Guerreiras (Coopmaris). A cooperativa nasceu de um projeto que uniu ONGs, universidades e outras instituições para transformar aquela realidade. Surgida às margens da Lagoa Mundaú como forma de organização para tirar as marisqueiras da informalidade, a Coopmaris conta hoje com mais de 40 mulheres cooperadas, que mantêm a tradição viva e buscam ocupar novos espaços.

A cooperativa passou a funcionar em um prédio reformado e equipado, com câmara frigorífica e paredes revestidas, financiado por recursos de ações civis públicas do Ministério Público do Trabalho. O espaço foi dimensionado para viabilizar o processamento diário de 1.800 kg de sururu bruto, com meta de produção máxima de 7 toneladas por mês de filé processado e certificado.

Mas nem só de estrutura física se constrói uma cooperativa. Mesmo com uma sede ampla e moderna, a cooperativa permaneceu inoperante durante algum tempo por falta de adequações exigidas pela vigilância sanitária. Foi então que a Sicredi Expansão, por meio de seu Fundo Social, entrou em cena com um investimento de R$ 15 mil para instalação de pias, torneiras, sistemas de ventilação e portas de alumínio, permitindo a abertura oficial do local.

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A iniciativa também combateu um problema histórico na cadeia produtiva do sururu. Havia anos que o trabalho infantil era identificado desde a cata do molusco no fundo da lagoa até sua despinicagem. O apoio à cooperativa surgiu com o objetivo de que as marisqueiras pudessem incrementar a renda familiar ao assumir a etapa da comercialização, normalmente controlada por intermediários, e ao melhorar as condições de trabalho, habitualmente precárias.

Segundo informações divulgadas pela fonte original, o SESCOOP/AL promoveu oficinas com a nutricionista Maria Helena Menezes, que resultaram em novos produtos: farofa de sururu, sururu desidratado, bolinhos de camarão, croquete de sururu com massa de macaxeira e biscoito de sururu com ervas. A diversificação amplía as possibilidades comerciais e agrega valor ao molusco, patrimônio imaterial da gastronomia alagoana.

Em relação aos mercados, uma novidade recente é relevante. O sururu deverá chegar ao prato de estudantes da rede pública municipal de Maceió. A iniciativa fortalece a economia local e consolida a Coopmaris como fornecedora para a Prefeitura, em um projeto piloto que vai atender cinco escolas municipais com 280 kg do produto por mês, gerando cerca de R$ 13 mil mensais para a cooperativa.

A sazonalidade, porém, segue sendo um obstáculo severo. O sururu é sazonal e sensível à variação de salinidade da lagoa, afetada por chuvas intensas e esgoto não tratado. Durante o inverno, o molusco não sobrevive e a pesca praticamente desaparece até setembro. Segundo informações divulgadas pela fonte original, nesse período as cooperadas vivem do pouco sururu congelado e, quando o estoque se esgota, muitas recorrem a trabalhos de faxina para sustentar a família.

E há uma lacuna de proteção social que agrava esse cenário. Enquanto pescadores artesanais têm acesso ao Seguro-Defeso durante o período de paralisação, as marisqueiras ficam de fora. Foi apresentado na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 596/25, que inclui os coletores de mariscos, crustáceos e moluscos entre os beneficiários do seguro-defeso — benefício no valor de um salário mínimo mensal, devido aos pescadores artesanais durante o período de reprodução das espécies. Com a mudança, as marisqueiras passariam a ter direito à renda temporária durante a paralisação obrigatória da atividade pesqueira.

Para a presidente da cooperativa, Vanessa dos Santos Silva, o caminho percorrido já é motivo de orgulho. "Nossa vida mudou demais depois que passamos a trabalhar na cooperativa. Nosso trabalho ficou bem mais fácil, bem mais leve, porque todas as cooperadas estão trabalhando e ajudando umas às outras", disse Vanessa. O desafio agora é garantir que essa mudança se aprofunde — com novos mercados, novas políticas públicas e o reconhecimento que esse trabalho, por tanto tempo invisível, sempre mereceu.

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