A tradicional Lavagem de Itapuã, em Salvador, na Bahia, celebrou sua 121ª edição nesta quinta-feira (5) com um desfile que enalteceu a tradição e a ancestralidade do bairro. Organizada pela Associação dos Moradores de Itapuã (AMI), a festa prestou homenagens a duas figuras essenciais para a manutenção da cultura local: o morador Ulisses dos Santos, conhecido como Mestre Ulisses, e Teresa Alves de Souza, Ekedi do terreiro Ilê Axé Oya Demim, de Lauro de Freitas, na Bahia.
Mestre Ulisses: guardião da tradição e voz pela juventude
Nativo de Itapuã, Mestre Ulisses expressou que este reconhecimento deve ser um motor para fortalecer ainda mais a celebração. Ele contou sobre seu longo envolvimento com a Lavagem, que remonta a 1950, quando já participava ativamente. O mestre foi, inclusive, responsável por introduzir o Afoxé Filhos de Gandhy, um dos maiores do mundo, na Lavagem. Atualmente, ele lidera o grupo Afoxé Korin Nagô, em Itapuã, ao lado de sua filha, Raimunda Santos, rainha do Afoxé.
“Talvez aqui hoje eu seja o mais velho que está aqui. Fiz essa lavagem por vários anos, porque em 1950 acho que eu já estava participando da Lavagem”, relatou Mestre Ulisses.
A homenagem a Mestre Ulisses carrega um simbolismo ainda maior, pois inicialmente seria dedicada ao seu primo, Carlos Teles, ex-ativista comunitário do bairro. Após o falecimento de Carlos, Mestre Ulisses, sendo mais velho e da mesma família, foi escolhido para receber a honra.
Publicidade“O homenageado não seria eu. Seria Carlos Telles, que é um primo meu. Essa pessoa faleceu e por ser mais velho do que ele, ser da família Telles, eles me escolheram. Então eu hoje estou cumprindo uma missão em homenagem a Carlos Telles”, explicou.
Apesar da alegria, Mestre Ulisses também manifestou preocupação com o futuro da Lavagem, que antes era mantida pelos próprios nativos – estivadores e doqueiros. Ele lamenta a dependência atual de apoio da prefeitura e do governo do estado, o que considera uma tristeza. Para ele, a solução reside na participação dos mais jovens.
“Eu espero que essa turma jovem, tome conta”, resumiu o mestre sobre a necessidade de renovação para a continuidade da festa.
Teresa Alves de Souza e a força das baianas
Ao lado de Mestre Ulisses, a segunda homenageada, Teresa Alves de Souza, celebrou sua gratidão. Ekedi do terreiro Ilê Axé Oya Demim, ela atua na Lavagem de Itapuã desde 2013, trazendo um vibrante coletivo de baianas de acarajé da região metropolitana de Salvador para o cortejo. Sua relação com a organização da festa começou por meio de sua amizade com Rose, uma das responsáveis pela AMI.
“Para mim, é uma grande alegria, uma satisfação e estou muito grata”, disse Teresa. “Eu já faço parte dessa lavagem há muitos anos e não esperava ser homenageada desse ano, mas estou grata”, completou, destacando a presença de seu grupo de mais de 100 baianas que desfilou em sua homenagem.
Um cortejo de fé e resistência cultural
O cortejo, um dos pontos altos da celebração, partiu de Piatã por volta das 10h da manhã, cumprindo o rito religioso. As baianas, símbolo da resistência cultural baiana, seguiram com suas flores e águas de cheiro, espalhando axé e perfumando o caminho. Junto a elas, desfilaram os integrantes do bloco Filhos de Gandhy e líderes religiosos, que realizaram uma liturgia tradicional com pipocas e milho branco, reforçando a profundidade espiritual e cultural da Lavagem de Itapuã.







