O São João de Amargosa 2026 chegou ao fim deixando um rastro de questionamentos que vão muito além do calendário junino. Historicamente um dos destinos mais procurados do interior da Bahia para a festa, a cidade do Vale do Jiquiriçá terminou a edição deste ano sob uma onda de insatisfação envolvendo moradores, ambulantes, comerciantes e turistas — todos apontando para um esvaziamento visível na Praça do Bosque em comparação com anos anteriores.
O principal gatilho para a crise foi o atraso na divulgação oficial da programação. O São João de Amargosa 2026 só foi lançado oficialmente no dia 6 de maio, semanas depois de cidades concorrentes como Santo Antônio de Jesus já terem anunciado seus shows com grande apelo de público. Para os forrozeiros que planejam a temporada com antecedência, a demora foi decisiva na hora de escolher o destino.
O impacto chegou direto ao bolso do comércio local. Sem saber o porte das atrações, muitos turistas habituais fecharam contratos de hospedagem em outras praças juninas antes mesmo de a grade de Amargosa ser revelada. "Ficamos sem saber quanto investir em mercadoria. Quando a grade saiu, muitos dos clientes que costumavam alugar casas em Amargosa já tinham fechado contratos com outras cidades", relatou um comerciante local à reportagem do jornal A Tarde, que preferiu não se identificar.
A prefeitura, comandada pelo prefeito Getúlio Sampaio (PT), defendeu sua estratégia com base na responsabilidade fiscal. O investimento municipal girou em torno de R$ 9 milhões. A gestão optou por não entrar numa guerra de cachês com municípios que apostaram em artistas de alto custo do mercado sertanejo e do piseiro. No palco principal, subiram nomes como João Gomes, Vitor Fernandes, Tayrone, Thiago Aquino, Elba Ramalho, Santanna o Cantador e Fulô de Mandacaru, numa programação pensada para atender diferentes públicos mantendo o forró como base do festejo.
O contexto estadual ajuda a entender a pressão que municípios como Amargosa enfrentaram. Em 2026, o Painel de Transparência dos Festejos Juninos recebeu informações de 410 municípios e do Governo do Estado, com mais de 4.600 apresentações de 2.200 artistas e investimentos que já passaram dos R$ 630 milhões. Nesse cenário, Irecê foi a cidade que mais gastou, com R$ 11,6 milhões firmados em contratos com 30 atrações para oito dias de festa. A disputa por turistas se tornou, de fato, uma guerra de orçamentos.
A festa, realizada entre 19 e 24 de junho, também celebrou os 135 anos de emancipação do município. Com pouco mais de 36 mil habitantes, Amargosa se organiza ao longo de todo o ano para receber milhares de visitantes. O pico de público da edição 2026 aconteceu na segunda-feira, dia 22 de junho, com cerca de 70 mil pessoas na Praça do Bosque, segundo informações divulgadas pelo jornal A Tarde. A estimativa era de que o evento movimentasse R$ 50 milhões em seis dias, com geração de mais de mil empregos diretos e indiretos.
Há ainda um contraponto que o Ministério Público coloca em cena. Segundo a fonte original do A Tarde, um levantamento do MP apontou crescimento de 204% nos gastos com a festa junina em três anos no município, enquanto menos de 3% da população local tem acesso à rede de esgoto. O dado reacende um debate antigo: até onde o investimento em turismo cultural compensa quando faltam serviços básicos à população?
Do lado positivo, Amargosa conquistou o Selo de Transparência pelos gastos do São João 2026, concedido pelo Ministério Público da Bahia aos municípios que prestaram contas pela plataforma do Painel de Transparência. O presidente da UPB, Wilson Cardoso, defende que a participação no Painel mostra a responsabilidade do município e que mais transparência pode sobrar em recursos para áreas essenciais como educação, saúde e assistência social.
Para 2027, o recado dos moradores e do setor econômico é claro: o planejamento precisa começar mais cedo. A tradição de Amargosa como destino junino de peso na Bahia não se sustenta só com a história — ela precisa de divulgação antecipada, programação competitiva e, sobretudo, de uma gestão que ouça a cidade antes de acender as fogueiras.







