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Adolescente, aposentada e urbanista: três vozes que mostram o perigo de pedalar na Via Expressa de Maceió

Na Avenida Menino Marcelo, ciclistas dividem a pista com carros e ônibus na falta de estrutura adequada — e moradores cobram solução há décadas.

Redação ChicoSabeTudoRedação · Municipios
21 de maio, 2026 · 06:21 3 min de leitura
Ciclista dividindo espaço com carros na Avenida Menino Marcelo, em Maceió
Ciclista dividindo espaço com carros na Avenida Menino Marcelo, em Maceió
PI 637

Quem pedala pela Avenida Menino Marcelo, no bairro da Serraria, parte alta de Maceió, conhece bem a sensação: bicicleta de um lado, carro ou ônibus de outro, e nenhuma faixa exclusiva à vista. Sem ciclovia nesse trecho, a escolha acaba sendo disputar a pista com o tráfego motorizado ou subir para a calçada — e ambas as opções trazem risco.

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O adolescente Átilas André, de 14 anos, usa a bicicleta para ir à escola e circular pelo bairro quase todo dia. Segundo ele, atravessar alguns pontos da avenida exige atenção constante. Nos horários de pico, o fluxo de veículos torna o percurso ainda mais arriscado. "Se tivesse uma ciclovia, seria muito bom. Me sentiria mais seguro", disse o jovem ao portal CadaMinuto.

A aposentada Lídia Maria, de 67 anos, mora na região há mais de três décadas e testemunha o problema pelo lado oposto: o da calçada. Sem espaço na pista, ciclistas acabam subindo para o passeio, gerando conflito com quem caminha. Para ela, idosa que circula sozinha, a situação representa medo real de acidente. "Eu moro aqui há 36 anos e sempre foi complicado assim", afirmou, segundo a reportagem.

O problema não é novo nem exclusivo de Maceió. Em São Luís, capital do Maranhão, a falta de ciclovias e de estrutura adequada expõe ciclistas a riscos diários no trânsito — sem uma malha conectada para circulação, quem usa a bicicleta precisa dividir espaço com carros e desviar de obstáculos. Pela legislação brasileira, os veículos maiores devem zelar pela segurança dos menores — na prática, porém, isso nem sempre acontece, e ciclistas relatam que motoristas passam muito perto, colocando vidas em risco.

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O arquiteto e urbanista Lucas Galdino, mestrando em Patrimônio Cultural e pesquisador em Paisagem Urbana, explica que a Avenida Menino Marcelo foi projetada originalmente para priorizar o fluxo rápido de automóveis em direção ao porto — mas a cidade cresceu ao redor dela. Com isso, a via passou a funcionar como uma avenida urbana comum, concentrando pedestres, ciclistas e moradores que antes não estavam no projeto original. Para o urbanista, quando a cidade não oferece estrutura para ciclistas, parte da população tem seu direito de circulação limitado — e isso afeta especialmente quem depende da bicicleta por necessidade econômica.

Lucas aponta que avenidas já consolidadas podem ser adaptadas por meio da redistribuição do espaço urbano e reorganização das faixas de rolamento. Segundo ele, muitas cidades já fizeram esse caminho, transformando vias voltadas exclusivamente para carros em corredores mais humanos, com ciclovias, calçadas mais largas e transporte coletivo.

A Via Expressa está conectada a bairros como Barro Duro, Serraria, Antares, Cidade Universitária e Benedito Bentes. A Prefeitura de Maceió anunciou a implantação de uma ciclovia na avenida, inserida em um pacote de obras de ampliação na altura do Antares. A nova ciclovia terá 1,7 km de extensão, compreendendo o trecho entre o supermercado Mix Mateus e a Marmogran.

Quem trafega pela Avenida Menino Marcelo também teve parte da rotina modificada com a construção de uma nova pista lateral de 1,8 quilômetro no sentido Centro, que ganhou ciclovia, calçadas acessíveis, nova rede elétrica e iluminação pública. Ainda assim, segundo moradores ouvidos pelo CadaMinuto, trechos como o da Serraria seguem sem a estrutura prometida.

Segundo o Departamento Municipal de Transportes e Trânsito (DMTT), mais de 300 mil maceioenses utilizam a bicicleta como meio de transporte para o trabalho, estudo ou lazer. Apesar disso, em 2025, Maceió contava com uma malha de 96 km de ciclovias e ciclofaixas — mais do que o dobro dos 30 km existentes em 2021. A expansão, porém, ainda não alcançou uniformemente todos os bairros da cidade.

O DMTT informou, em nota, que nas vias sem ciclovia o ciclista tem preferência sobre os veículos motorizados e deve circular pelas bordas da pista, no mesmo sentido do tráfego. A Secretaria de Infraestrutura (Seminfra) citou o Plano de Mobilidade Urbana de Maceió (PlanMobi), que está em fase de consultas públicas e estudos técnicos, como parte da estratégia de longo prazo para a mobilidade ativa na capital alagoana.

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