Quem pedala pela Avenida Menino Marcelo, no bairro da Serraria, parte alta de Maceió, conhece bem a sensação: bicicleta de um lado, carro ou ônibus de outro, e nenhuma faixa exclusiva à vista. Sem ciclovia nesse trecho, a escolha acaba sendo disputar a pista com o tráfego motorizado ou subir para a calçada — e ambas as opções trazem risco.
O adolescente Átilas André, de 14 anos, usa a bicicleta para ir à escola e circular pelo bairro quase todo dia. Segundo ele, atravessar alguns pontos da avenida exige atenção constante. Nos horários de pico, o fluxo de veículos torna o percurso ainda mais arriscado. "Se tivesse uma ciclovia, seria muito bom. Me sentiria mais seguro", disse o jovem ao portal CadaMinuto.
A aposentada Lídia Maria, de 67 anos, mora na região há mais de três décadas e testemunha o problema pelo lado oposto: o da calçada. Sem espaço na pista, ciclistas acabam subindo para o passeio, gerando conflito com quem caminha. Para ela, idosa que circula sozinha, a situação representa medo real de acidente. "Eu moro aqui há 36 anos e sempre foi complicado assim", afirmou, segundo a reportagem.
O problema não é novo nem exclusivo de Maceió. Em São Luís, capital do Maranhão, a falta de ciclovias e de estrutura adequada expõe ciclistas a riscos diários no trânsito — sem uma malha conectada para circulação, quem usa a bicicleta precisa dividir espaço com carros e desviar de obstáculos. Pela legislação brasileira, os veículos maiores devem zelar pela segurança dos menores — na prática, porém, isso nem sempre acontece, e ciclistas relatam que motoristas passam muito perto, colocando vidas em risco.
O arquiteto e urbanista Lucas Galdino, mestrando em Patrimônio Cultural e pesquisador em Paisagem Urbana, explica que a Avenida Menino Marcelo foi projetada originalmente para priorizar o fluxo rápido de automóveis em direção ao porto — mas a cidade cresceu ao redor dela. Com isso, a via passou a funcionar como uma avenida urbana comum, concentrando pedestres, ciclistas e moradores que antes não estavam no projeto original. Para o urbanista, quando a cidade não oferece estrutura para ciclistas, parte da população tem seu direito de circulação limitado — e isso afeta especialmente quem depende da bicicleta por necessidade econômica.
Lucas aponta que avenidas já consolidadas podem ser adaptadas por meio da redistribuição do espaço urbano e reorganização das faixas de rolamento. Segundo ele, muitas cidades já fizeram esse caminho, transformando vias voltadas exclusivamente para carros em corredores mais humanos, com ciclovias, calçadas mais largas e transporte coletivo.
A Via Expressa está conectada a bairros como Barro Duro, Serraria, Antares, Cidade Universitária e Benedito Bentes. A Prefeitura de Maceió anunciou a implantação de uma ciclovia na avenida, inserida em um pacote de obras de ampliação na altura do Antares. A nova ciclovia terá 1,7 km de extensão, compreendendo o trecho entre o supermercado Mix Mateus e a Marmogran.
Quem trafega pela Avenida Menino Marcelo também teve parte da rotina modificada com a construção de uma nova pista lateral de 1,8 quilômetro no sentido Centro, que ganhou ciclovia, calçadas acessíveis, nova rede elétrica e iluminação pública. Ainda assim, segundo moradores ouvidos pelo CadaMinuto, trechos como o da Serraria seguem sem a estrutura prometida.
Segundo o Departamento Municipal de Transportes e Trânsito (DMTT), mais de 300 mil maceioenses utilizam a bicicleta como meio de transporte para o trabalho, estudo ou lazer. Apesar disso, em 2025, Maceió contava com uma malha de 96 km de ciclovias e ciclofaixas — mais do que o dobro dos 30 km existentes em 2021. A expansão, porém, ainda não alcançou uniformemente todos os bairros da cidade.
O DMTT informou, em nota, que nas vias sem ciclovia o ciclista tem preferência sobre os veículos motorizados e deve circular pelas bordas da pista, no mesmo sentido do tráfego. A Secretaria de Infraestrutura (Seminfra) citou o Plano de Mobilidade Urbana de Maceió (PlanMobi), que está em fase de consultas públicas e estudos técnicos, como parte da estratégia de longo prazo para a mobilidade ativa na capital alagoana.







