Quatro trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão dentro de uma comunidade terapêutica em Feira de Santana, na Bahia. Três deles haviam chegado ao local inicialmente como pacientes e passaram a trabalhar de forma habitual para manter a instituição em funcionamento, segundo apuração de auditores da Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT).
A fiscalização contou com participação do Ministério Público do Trabalho (MPT) e da Polícia Federal (PF). Nenhum dos quatro trabalhadores tinha contrato formal ou registro de emprego. Foram encontradas jornadas excessivas, falta de descanso regular, pagamentos abaixo do salário mínimo e condições precárias de moradia, higiene e segurança.
Os pacientes acolhidos pela instituição realizavam limpeza, manutenção do espaço, lavagem de roupas, preparo de refeições e cuidados com outros residentes, atividades apresentadas como parte do processo de recuperação. No entanto, a fiscalização não encontrou um plano terapêutico que justificasse a execução permanente desses serviços, inclusive aos finais de semana. Também não havia profissionais de saúde ou pessoas com qualificação técnica para acompanhar os acolhidos, apesar da rotina incluir cuidados com residentes e administração de medicamentos.
Um dos trabalhadores resgatados vivia na instituição havia mais de 15 anos, em situação de acentuada vulnerabilidade social, com pouco contato com familiares e sem meios próprios de comunicação. O quarto trabalhador não havia entrado como paciente: teria sido contratado em agosto de 2025 para cuidar dos acolhidos, administrar medicamentos, preparar refeições e acompanhá-los em atendimentos de saúde, recebendo menos de um salário mínimo e sem vínculo formalizado.
Os quatro dormiam nos mesmos ambientes onde trabalhavam, sem separação entre espaço de moradia e de trabalho. Um deles não recebia remuneração alguma. Em outro caso, um benefício assistencial era entregue integralmente ao responsável pela instituição, que repassava ao beneficiário um valor menor como pagamento pelas atividades realizadas.
Um dos resgatados relatou ter trabalhado cerca de 25 dias seguidos antes de conseguir uma folga. Outro afirmou que só teria previsão de descansar novamente no fim do ano. A auditoria também identificou falhas no fornecimento de equipamentos de proteção individual e ausência de exames ocupacionais e treinamentos.
A Auditoria-Fiscal do Trabalho classificou a situação como trabalho análogo à escravidão, nas modalidades de trabalho forçado, jornada exaustiva e condições degradantes. Após o resgate, os vínculos empregatícios dos quatro foram reconhecidos e registrados no eSocial desde as respectivas datas de admissão. Foram determinados os recolhimentos de FGTS e contribuições previdenciárias, além do pagamento de outras verbas trabalhistas. Os trabalhadores poderão receber o seguro-desemprego destinado a vítimas de trabalho escravo, conforme os requisitos legais. A fiscalização deverá ainda lavrar autos de infração pelas irregularidades constatadas.
A rede de saúde e assistência social de Feira de Santana foi acionada para dar suporte às demais pessoas que permaneciam acolhidas na instituição.
Segundo apuração do e-Política, publicada em 25 de agosto de 2026, a instituição fiscalizada é a Comunidade Terapêutica Eu Já Sou Livre (Cresol), registrada no Conselho Municipal de Saúde de Feira de Santana. Essa mesma apuração indica que a ação ocorreu em 18 de agosto de 2026 e teve participação também do Ministério Público da Bahia, informação não confirmada nas demais fontes consultadas. O Diário Oficial Eletrônico do município registra que a instituição está inscrita no Conselho Municipal de Saúde desde maio de 2026, mas essa publicação não trata do resgate nem das irregularidades trabalhistas.







