A historiadora e antropóloga Rose Silva traça uma linha direta entre o passado colonial e a realidade cotidiana de mulheres negras em Alagoas: quanto mais cedo elas entram no mercado de trabalho e menor for sua escolaridade, mais expostas às desigualdades sociais elas ficam. E, segundo ela, o racismo tem papel central nisso — age sobre a aprendizagem, limita oportunidades e naturaliza a exploração.
"Quanto menos acesso à educação ela tem e mais cedo ela se insere no mercado de trabalho, ela fica mais propensa às desigualdades sociais, principalmente em relação à raça. Porque o racismo vai afetar na aprendizagem dela", afirmou Rose em análise sobre a situação das mulheres negras no estado.
A especialista explica que essa dinâmica não surgiu do nada. Ela tem raízes na organização compulsória do trabalho durante a escravidão, quando mulheres negras eram exploradas nas lavouras, nas Casas-Grandes como cuidadoras de filhos alheios, e nas ruas como lavadeiras, passadeiras e quituteiras. Com a abolição em 1888, esse modelo não foi desfeito — simplesmente mudou de forma. O lugar social da mulher negra no Brasil foi moldado por séculos de escravização, seguido pela ausência de políticas reparatórias após a abolição.
Na contemporaneidade, o que Rose descreve se confirma nos números. Em 2022, 37% das mulheres negras não tinham o ensino fundamental completo, enquanto entre as mulheres brancas a proporção era de 27%. A desigualdade racial se aprofunda no ensino superior: apenas 15% das mulheres negras atingem esse nível, contra 29% das mulheres brancas — quase o dobro.
Para a historiadora, a engrenagem funciona assim: a necessidade urgente de complementar a renda familiar empurra meninas e jovens negras para o trabalho informal muito cedo. Esse movimento tira tempo de estudo, reduz a escolaridade e, no médio prazo, bloqueia o acesso a empregos qualificados. Os fatores de risco para trabalho infantil, gravidez precoce, baixa escolaridade e insegurança alimentar são potencializados nas famílias lideradas por mulheres negras.
O cenário em Alagoas não destoa da tendência nacional. Muitos pais com baixo nível educacional incentivam seus filhos a trabalhar cada vez mais cedo, forçando um abandono precoce dos estudos e culminando em um ciclo de pobreza que se perpetua por gerações. Para Rose, a própria estrutura social normaliza essa entrada antecipada no mercado como algo natural, quando na verdade é o resultado de um processo histórico de exclusão.
A violência aparece como consequência desse ciclo. Segundo a especialista, a mulher que acumula trabalho informal, cuidado dos filhos, tarefas domésticas e baixa renda formal fica "mais sujeita às violências sistemáticas e à própria violência contra a mulher". A violência doméstica, nesse cenário, não é apenas uma agressão individual — é a expressão de uma lógica colonial que retira dessas mulheres o direito à fragilidade e ao cuidado.
O impacto vai além da vida privada. Rose aponta que a mulher em situação de violência doméstica evade da escola, sobrecarrega a rede pública de saúde e perde empregos, gerando reflexos diretos no desenvolvimento do estado. A maioria dos lares na faixa de extrema pobreza é liderada por mulheres negras. A maior distância de renda se dá entre as mulheres negras e os homens brancos — estes últimos vivem em domicílios cuja renda por membro é o dobro da renda com que vivem as mulheres negras e suas famílias.
Para a historiadora, compreender esse ciclo exige olhar além das estatísticas de violência e enxergar a cadeia que conecta herança colonial, precarização econômica e racismo estrutural. Sem essa leitura, diz ela, o problema continuará sendo tratado como questão individual — e não como o fenômeno social e histórico que é.







