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Expulsos do Pelourinho há 30 anos, ex-moradores do Maciel constroem evento para não deixar a memória morrer

3ª Caminhada dos Amigos do Maciel reúne centenas de pessoas para celebrar o legado cultural das famílias que sustentaram o Centro Histórico de Salvador antes da reforma que as expulsou.

Redação ChicoSabeTudoRedação · Cultura
31 de maio, 2026 · 07:16 4 min de leitura
Portal ChicoSabeTudo
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Nas décadas que antecederam a grande reforma do Centro Histórico de Salvador, o bairro do Maciel era um território à margem da cidade oficial — mas vivo. Músicos, trabalhadores, prostitutas, parteiras e vendedores conviviam nos mesmos paralelepípedos onde nasceu boa parte da percussão baiana. Foi dali que saíram os ritmos que um dia atrairiam nomes como Paul Simon e Michael Jackson ao Pelourinho.

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Tudo mudou a partir de 1992, quando o governo do estado, sob o comando de Antônio Carlos Magalhães, iniciou o chamado Programa de Recuperação do Centro Histórico de Salvador. O projeto, concebido em sete etapas, mudou a orientação inicial de recuperação social para focar no potencial turístico e econômico, dando início a um processo que expulsou a grande maioria dos moradores de baixa renda e transformou a função dos imóveis, voltando-os para o comércio e os serviços. Segundo pesquisadores, cerca de 95% das pessoas que ali viviam foram tragicamente expulsas de suas casas.

Três décadas depois, um grupo de ex-moradores decidiu que esse passado não merece ficar enterrado sob as pedras coloridas do bairro reformado. Segundo reportagem do jornal A Tarde, no próximo domingo, dia 7, será realizada a 3ª Caminhada dos Amigos do Maciel – Pelourinho, evento que começa no Santo Antônio Além do Carmo e termina no Largo Quincas Berro d'Água, com shows e feijoada.

A iniciativa é do segurança e músico Gilmar Duas Cor, ele mesmo nascido em um casarão da Rua Gregório de Mattos há 56 anos. Na primeira edição, em 2024, esperava reunir cerca de 30 amigos de forma informal. Com a repercussão nas redes sociais, o evento cresceu. Para esta terceira edição, foram encomendadas mil camisetas, vendidas a R$ 60 cada, com direito a café da manhã, feijoada, três latas de cerveja e apresentações musicais. Antes de ser segurança, Duas Cor foi músico do Olodum e acompanhou Gal Costa em turnê pelo México, Espanha e Argentina nos anos 80.

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Entre os homenageados desta edição está Mestre Gilmar Paim, percussionista que ajudou a moldar a batida dos blocos afro e das escolas de samba da Bahia a partir dos anos 1980. Integrante histórico do Ara Ketu e conhecido como Apito de Ouro, ele também atuou no Ilê Aiyê, nos Apaxes do Tororó, no Lord's e no Alerta Geral, sendo diretor de bateria em vários deles. Morreu em 2023, aos 77 anos, vítima de câncer. Sua filha, Magda Paim, diretora administrativa e financeira do Grupo Olodum, estará presente para representar o legado do pai.

A partir dos anos 1950, o Pelourinho sofreu um forte processo de degradação, o que transformou aquela região do Centro Histórico em uma zona moradia popular e palco da cultura negra da cidade. Essa mudança demográfica deu origem aos grupos culturais e comunitários sediados no bairro, que se transformaram nos anos 1980 e 1990 em atores políticos importantes para a redemocratização brasileira.

O tombamento do Centro Histórico de Salvador como patrimônio cultural da humanidade em 1985 ocorreu não apenas pela existência do conjunto arquitetônico barroco. Quando foi tombado, o CHS — que engloba Pelourinho, Maciel, Saldanha, Barroquinha e Passo — já era reconhecido nacionalmente como território que abriga importantes símbolos do repertório político e cultural do povo negro em Salvador. Exemplos disso são a sede do bloco afro Olodum, do afoxé Filhos de Gandhy, os centenários mercados São Miguel e Santa Bárbara e a Igreja do Rosário dos Pretos.

O processo intensificado na década de 1990 por reformas urbanas autoritárias pretendia transformar o Pelourinho num shopping a céu aberto, e foi exatamente isso que aconteceu: o Pelourinho passou pelo processo de revitalização com a finalidade de melhorar os aspectos físicos dos prédios e combater a prostituição e a criminalidade, e diversas residências foram desapropriadas para dar lugar a bares, restaurantes e outros comércios atrativos para visitantes.

A caminhada é, portanto, uma resposta coletiva e afetiva a essa história. Para os organizadores, trata-se de mostrar à cidade quem foram as pessoas que "seguraram a onda" do Centro Histórico antes que ele se tornasse cartão-postal — e que cederam, voluntariamente ou não, suas casas a um projeto turístico que os deixou de fora. Para muitos deles, as eleições municipais passaram a ser, após as remoções, o único momento de reencontro garantido com os vizinhos de infância. A caminhada veio para mudar isso.

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