A cineasta baiana Dandara Ferreira tem uma câmera e uma convicção: o Brasil ainda não enfrentou de verdade o que aconteceu durante a pandemia de Covid-19. É com esse espírito que ela lança Anatomia do Caos, documentário sobre a CPI da Covid, com estreia marcada para o dia 2 de julho nos cinemas de todo o país.
Em entrevista ao portal A Tarde, Dandara foi direta ao ponto. Para ela, cinco anos após a instalação da CPI e com mais de 700 mil brasileiros mortos, a ausência de responsabilização é a imagem mais violenta deixada por aquele período. "O filme é justamente sobre isso", disse a diretora, ao ser questionada sobre a falta de punição aos envolvidos nas decisões que marcaram a gestão da crise sanitária.
A decisão de filmar veio no início de 2021, quando os números de mortes escalavam e o Congresso aprovava a abertura da comissão parlamentar. Segundo a própria Dandara, ela sentiu que o cinema poderia dar voz ao povo brasileiro naquele momento — "estávamos todos sendo violentados de uma maneira cruel", disse ela, afirmando que sua arma era justamente uma câmera.
Sem equipe formada, ela assumiu praticamente todas as funções da produção. Nunca tinha operado uma câmera antes. "Operei câmera, som, produção e fui descobrindo a história enquanto ela acontecia", relatou. Com um equipamento pequeno para não chamar atenção, buscou permanecer invisível durante as sessões e nos bastidores da comissão, registrando momentos que raramente apareceriam na cobertura jornalística convencional.
O que mais a chocou ao longo das filmagens não foi apenas o número de mortes, mas a postura de quem deveria proteger vidas. Na entrevista, ela afirmou que a insensibilidade e o deboche diante da agonia das pessoas foram os elementos mais difíceis de suportar — e que normalizar aquilo seria, em suas palavras, rebaixar-se ao insuportável no valor da vida. O longa aborda temas que permanecem atuais, como o negacionismo científico, a desinformação e a banalização da morte.
A produção, realizada em parceria com a Descoloniza Filmes, traz entrevistas com parlamentares que participaram da comissão e resgata a repercussão que os debates no Senado tiveram na esfera pública, em um período em que o Brasil contabilizava centenas de mortes por dia. No documentário, não há narrador: quem conduz o relato é a própria imprensa, que, segundo Dandara, cumpriu papel decisivo ao confrontar os números oficiais que eram forjados.
"Anatomia do Caos" também confronta a impunidade dos responsáveis diretos pela condução política da crise. Para a diretora, o documentário não busca apenas revisitar o passado, mas questionar o presente e o que significa seguir adiante sem justiça ou responsabilização.
Nascida em Salvador e formada em cinema pela FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado), Dandara é filha do ex-ministro da Cultura Juca Ferreira. Ela escolheu o 2 de Julho — data símbolo da Independência da Bahia — para o lançamento nacional do filme. As sessões especiais estão previstas em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus, Recife, Curitiba, Salvador, Brasília e Fortaleza.
Depois de uma bem-sucedida estreia no cinema de ficção com a cinebiografia de Gal Costa, Meu Nome É Gal, Dandara confirma agora mais um projeto em andamento: uma cinebiografia do cantor Odair José, ainda em fase de finalização. A cineasta baiana segue firme no caminho de usar o cinema como instrumento político e de memória.







