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Cultura

Cadernos em grego e amizade com Jorge Amado: filha revela segredos da vida de Myriam Fraga

Angela Fraga encontrou anotações inéditas da mãe e conta detalhes da formação intelectual da poetisa baiana, homenageada da Flipelô 2026 em agosto, em Salvador.

Redação ChicoSabeTudo
26 de julho, 2026 · 03:07 3 min de leitura
Poeta baiana Myriam Fraga, homenageada da 10ª edição da Flipelô em Salvador
Poeta baiana Myriam Fraga, homenageada da 10ª edição da Flipelô em Salvador

A advogada Angela Fraga fez uma descoberta emocionante entre os pertences guardados em casa: um caderno com anotações em grego, material que sua mãe, a poeta e escritora Myriam Fraga, usava para estudar o idioma por conta própria. O achado chegou em boa hora. Myriam será a grande homenageada da décima edição da Festa Literária Internacional do Pelourinho, a Flipelô, que acontece de 5 a 9 de agosto de 2026, no Centro Histórico de Salvador.

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Segundo Angela, a mãe era autodidata e chegou a fazer aulas formais de grego. Essa erudição, conta a filha, aparece diretamente nos poemas que Myriam deixou para a literatura brasileira. "Ela estudava muito", relembra Angela, ressaltando que a curiosidade intelectual era uma marca constante da escritora.

Myriam cresceu em uma casa da Avenida Princesa Leopoldina, no bairro da Graça, em Salvador. Filha do médico Orlando de Castro Lima — um poeta diletante que nunca quis publicar seus versos — ela conviveu desde criança com figuras como o escritor Jorge Amado e o artista plástico Mirabeau Sampaio, amigos da família. Com o tempo, o pai abriu os livros de sua biblioteca para a filha, mesmo numa época em que as leituras disponíveis às mulheres jovens eram restritas. "Não se podia ler tudo, as moças tinham um padrão de leitura", conta Angela.

Ainda criança, Myriam declarou que queria ver o próprio nome na capa de um livro. Segundo a filha, ela decorava poemas e disputava batalhas de leitura com o pai — uma das brincadeiras favoritas da família. O sonho se realizou em 1964, quando a Editora Macunaíma publicou Marinhas, seu primeiro livro. Depois do lançamento, Jorge Amado — que havia lido um artigo elogioso ao trabalho de Myriam — pediu exemplares para enviar a amigos. No dia seguinte ao jantar em que o pedido foi feito, o motorista do escritor apareceu para buscar os volumes. Os livros foram enviados com cartão para Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Stella Leonardos.

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Entre 1980 e 1986, Myriam coordenou a Coleção dos Novos da Fundação Cultural do Estado da Bahia, projeto voltado a escritores em início de carreira. Por lá passaram nomes como Aleilton Fonseca e Carlos Ribeiro, que começou como estagiário do setor de literatura da Funceb aos 20 anos. Em 1981, Ribeiro publicou pela coleção o livro Já vai longe o tempo das baleias, sobre o bairro de Itapuã, onde cresceu. Ele classifica a influência de Myriam como "decisiva" em sua trajetória literária e a recorda pela "simplicidade, generosidade e o fino trato".

Foi justamente essa proximidade com Jorge Amado que levou Myriam a criar, em 1982, uma exposição itinerante sobre o escritor baiano e, mais tarde, a propor a fundação de uma instituição para abrigar o vasto acervo do autor — cartas, fotografias, manuscritos e primeiras edições de livros. A iniciativa resultou na criação da Fundação Casa de Jorge Amado, que Myriam dirigiu por três décadas, de 1986 até sua morte, em 2016.

A Flipelô, hoje o maior evento literário da Bahia, também nasceu de uma ideia da poeta. Após participar da Festa Literária Internacional de Paraty em 2006 — ano em que Jorge Amado foi o autor homenageado —, Myriam voltou com o projeto de transformar o Pelourinho em palco de uma grande celebração literária. A primeira edição da festa aconteceu em 2017, um ano após sua morte. Angela Fraga, que hoje preside a Fundação Casa de Jorge Amado, resume: "Infelizmente, Myriam Fraga não conseguiu ver a concretização de sua ideia. Agora, na 10ª edição, achamos mais do que justo homenageá-la."

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A abertura da Flipelô 2026 está prevista para a noite do dia 5 de agosto, com show de Belô Velloso no Largo do Pelourinho, que incluirá recitação de poemas de Myriam. A edição terá mais de 500 escritores brasileiros e nove convidados internacionais. A homenagem se estende ainda ao artista plástico Calasans Neto, parceiro criativo de Myriam desde o primeiro livro, em 1964.

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