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Pesquisa da UFBA mapeia mais de 86 mil mensagens antivacina no Telegram e expõe venda de certificados falsos

Estudo do Instituto de Saúde Coletiva identificou comprovantes fraudulentos sendo negociados por até R$ 200 em 542 canais e 286 grupos da plataforma.

Redação ChicoSabeTudoRedação · Serviço
20 de maio, 2026 · 06:03 2 min de leitura
Tela de celular com grupos do Telegram exibindo mensagens de desinformação sobre vacinas
Tela de celular com grupos do Telegram exibindo mensagens de desinformação sobre vacinas

Uma pesquisa conduzida pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) acendeu um alerta sobre o alcance da desinformação antivacina no Brasil. O estudo mapeou uma rede organizada de negacionistas que, além de espalhar mentiras sobre imunizantes, transformou a desconfiança em produto comercial: certificados de vacinação falsos à venda pelo Telegram.

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A análise examinou 86.568 mensagens compartilhadas em 542 canais e 286 grupos do Telegram entre abril de 2025 e março de 2026. O trabalho integra o projeto "Ecossistemas multiplataforma e ataques à integridade da informação em saúde: impactos, padrões de disseminação e estratégias de mitigação".

Segundo a pesquisadora Maria Paula Caldas, doutoranda do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA, a venda de certificados falsos apareceu como um dos principais achados da pesquisa. Os pesquisadores identificaram anúncios oferecendo comprovantes fraudulentos por valores entre R$ 150 e R$ 200 na plataforma.

A fraude não envolve invasão ao sistema do SUS. O que os criminosos fazem é replicar e falsificar o formato dos comprovantes. Nos meios oficiais, a pessoa continua sem o cadastro de vacina, mesmo comprando o documento falso.

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Além da venda dos certificados, o estudo também identificou outras formas de monetização da desinformação, como a venda de supostos "detox vacinais" — produtos prometendo "desintoxicar" pessoas vacinadas. O fenômeno revela uma estrutura criminosa que lucra tanto com o medo quanto com a negação da ciência.

Os pesquisadores tratam a desinformação como se fosse um vírus, com grande capacidade de disseminação entre quem ainda não foi "infectado" pela narrativa falsa. Essa propagação ocorre principalmente em aplicativos de mensagem como WhatsApp e Telegram, ambientes de difícil rastreabilidade.

O Brasil é apontado como epicentro da desinformação antivacina, concentrando cerca de 40% de todo o conteúdo que circulou no período monitorado. Apenas no país, foram identificadas mais de 580 mil postagens dessa natureza.

Em 2025, ainda circula 122 vezes mais conteúdo antivacina do que circulava em 2019, antes da pandemia. Isso demonstra que a desinformação sobre vacinas não desapareceu com o fim da crise sanitária — ela se institucionalizou como discurso permanente.

O Brasil corre risco de voltar a ter surtos de doenças que antes eram controladas, por conta da redução na cobertura vacinal, em parte causada pela desinformação. O impacto vai além do indivíduo que compra o documento falso: a fraude tem efeito negativo no funcionamento do sistema de informação vacinal do país, distorcendo dados que embasam políticas públicas, como o percentual de cobertura da população.

A venda de documentos falsos de vacinação pode ser enquadrada como crime de peculato digital, associação criminosa e infração de medida sanitária preventiva. Já existem mecanismos legais para punir os responsáveis — o desafio, agora, é fazer as investigações avançarem na mesma velocidade com que as redes criminosas se renovam.

A pesquisa ainda está em andamento e deve resultar na criação de um painel público de monitoramento da desinformação sobre vacinas no Brasil. A ferramenta pretende mapear regiões, tipos de conteúdos falsos e padrões de disseminação, auxiliando órgãos públicos na formulação de políticas de enfrentamento.

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