Parecem inofensivos, mas memes que viralizaram sobre o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) em 2025 acenderam um alerta importante. Para Júlio César Lourenço, sociólogo e educador social do próprio CAPS, essas publicações nas redes sociais, que associam comportamentos diversos a frases como “o paciente mais fraco do CAPS”, reforçam estigmas e podem criar barreiras sérias para quem precisa de ajuda na área da saúde mental.
Criado em 2002 pelo Ministério da Saúde, o CAPS nasceu para virar a página do antigo modelo de hospitais psiquiátricos, focando num cuidado mais humano e próximo da comunidade. O serviço atende pessoas que enfrentam sofrimento psíquico intenso ou estão em crise, e o melhor é que qualquer um pode buscar ajuda de forma espontânea, sem precisar de encaminhamento prévio.
A atuação do CAPS vai muito além da ideia de “cura”. Júlio César explica que o foco é reduzir danos e diminuir o sofrimento psicológico de cada pessoa. Os pilares do trabalho são um atendimento humanizado, o cuidado compartilhado e um acolhimento digno, sempre com um olhar atento aos direitos humanos e à dignidade individual.
“O CAPS não trabalha só com a ideia de cura. A gente também trabalha com a redução de danos e com a diminuição do sofrimento daquela pessoa”, disse Júlio César.
Ele reforça que o CAPS é um grande agente de mudança na saúde mental brasileira, que por muito tempo foi marcada por uma visão manicomial e cheia de preconceitos. O serviço propõe exatamente o contrário: rompe com a lógica da internação forçada, valoriza a escuta ativa do paciente e constrói o tratamento junto com ele. O objetivo é mostrar que pessoas em sofrimento psíquico podem e devem conviver normalmente em sociedade e com suas famílias.
“O CAPS surge exatamente ao contrário dessa lógica. Ele rompe com a ideia de internação, aposta na escuta do paciente, na construção do tratamento junto com a pessoa, no acolhimento humano e no enfrentamento desses estigmas de que alguém em sofrimento psíquico não pode conviver em sociedade ou com a própria família”, detalhou o sociólogo.
Como o CAPS funciona? Conheça os tipos de atendimento
Para atender às diferentes necessidades da população, os Centros de Atenção Psicossocial se dividem em várias modalidades:
- CAPS I: Atende pessoas de todas as idades com sofrimento psíquico intenso, incluindo problemas com álcool e outras drogas.
- CAPS II: Também atende todas as faixas etárias com sofrimento psíquico intenso.
- CAPS i: É feito sob medida para crianças e adolescentes.
- CAPS AD: Focado em pessoas que enfrentam problemas com álcool e outras drogas.
- CAPS III: Funciona 24 horas por dia, incluindo fins de semana e feriados, e oferece acolhimento noturno para adultos que precisam de atenção contínua.
- CAPS AD III: Com funcionamento parecido, mas direcionado para usuários de álcool e outras drogas.
Em 2025, uma onda de memes invadiu as redes sociais, usando frases como “do jeito que o CAPS gosta” ou “esse fugiu do CAPS”. Essas postagens, muitas vezes acompanhadas de imagens ou vídeos de comportamentos considerados “diferentes”, acabaram associando o serviço de forma pejorativa a transtornos psicológicos.
Júlio César conta que, no começo, a comunidade da saúde mental chegou a pensar que a visibilidade dos memes poderia ser positiva, mas a percepção mudou rápido. “Quando surgiu o meme, eu até pensei que poderia ser algo positivo, mas ele acabou se direcionando para um lado de estigmatização e desvalorização, o que não é ideal”, ponderou.
“A comunidade da saúde olhou isso com muito receio. A divulgação é importante, mas quando não segue a proposta do CAPS, as interpretações acabam sendo muito diversas”, completou.
O grande perigo, segundo o sociólogo, é que esses memes reforçam a velha ideia de que quem busca ajuda para a saúde mental é “louco” ou incapaz. Isso acaba criando um muro para quem mais precisa, fazendo com que muitas pessoas, com medo do julgamento, deixem de procurar atendimento e fiquem em sofrimento, o que pode piorar o quadro.
“Quem é leigo pode ver esse tipo de divulgação de forma negativa. Em alguns casos, isso trava o serviço, porque a pessoa deixa de procurar ajuda. Ao invés de buscar atendimento psicológico ou iniciar um tratamento, ela permanece em sofrimento, que pode se agravar”, alertou Júlio César.
Apesar do estrago na imagem, Júlio César afirma que, felizmente, não houve uma queda nos atendimentos nos CAPS. O número de pacientes se manteve estável, em parte graças às ações de esclarecimento que o Ministério da Saúde promoveu depois que o assunto ganhou força nas redes.
“Eu não vejo uma relação direta nem de ganho nem de perda. O público ficou estável. Houve uma preocupação maior do Ministério da Saúde com a forma como a saúde mental estava sendo retratada, mas isso não se refletiu necessariamente em aumento ou diminuição do número de pacientes”, avaliou o educador social.
No entanto, a imagem do CAPS foi sim prejudicada. Para o especialista, ainda falta uma estratégia de comunicação mais robusta e contínua, vinda tanto do Ministério da Saúde quanto das prefeituras. É preciso explicar melhor o que o CAPS faz e, assim, derrubar os preconceitos que ainda rondam a saúde mental na população em geral.







