Uma pesquisa em andamento na Universidade Federal da Bahia (UFBA), financiada pelo Ministério da Saúde por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), expôs um mercado ilegal que muita gente desconhece: a venda de passaportes vacinais falsos dentro de grupos do Telegram. O preço médio cobrado varia entre R$ 150 e R$ 200, pagos por Pix, e o "serviço" é direcionado a quem quer driblar exigências de vacinação — como as de escolas e empregadores — sem tomar a vacina de fato.
Os pesquisadores responsáveis pelo estudo mapearam, somente no Telegram, 86.568 postagens de desinformação e teorias da conspiração relacionadas à vacinação, compartilhadas entre 542 canais e 286 grupos da plataforma no período de 1º de abril de 2025 a 31 de março de 2026, segundo informações divulgadas pelo portal A Tarde. Dentro desse ambiente, encontraram a oferta aberta de comprovantes falsos de vacinação.
O esquema funciona de forma simples: alguém anuncia o serviço no grupo, o interessado fornece nome e CPF, realiza o pagamento via Pix e recebe o documento. A linguagem dos anúncios é publicitária, com promessa de que o registro aparecerá em sistemas oficiais. Criminosos usam o Telegram para vender cartões de vacinação fraudados, com registro oficial no sistema do SUS, a pessoas que acreditam em teorias conspiratórias compartilhadas nesses mesmos grupos.
Inserir dados falsos em sistema de informação da administração pública é crime federal, com pena de dois a 12 anos de prisão e multa. Quem contrata o serviço pode ser enquadrado no crime de uso de documento falso, com penas que chegam a seis anos de prisão. Além do risco legal, quem compra o serviço entrega CPF e nome completo a criminosos. A pessoa que contrata o esquema também fica suscetível a ter seus dados usados de maneira indevida — com nome completo e CPF, golpistas podem cometer fraudes bancárias e até extorsão.
O Telegram se tornou o centro desse ecossistema por razões estruturais. O aplicativo de mensagem é reconhecido por ter uma política de moderação de conteúdo quase nula e pouca transparência para com as autoridades brasileiras. Segundo informações divulgadas pelo A Tarde, o coordenador do Laboratório de Humanidades Digitais da UFBA, Leonardo Nascimento, explica que são usados "bots" — robôs para envio padronizado de mensagens — para disparar os anúncios sempre nos mesmos horários e na mesma quantidade por dia, atingindo simultaneamente centenas de grupos. As outras redes sociais, como YouTube, Instagram e WhatsApp, funcionam como porta de entrada para esses grupos extremistas.
Em alguns dos canais, além da desinformação sobre vacinas e da venda ilegal de passaportes vacinais, circulam livremente outros conteúdos ilícitos, de teor antissemita, de apologia ao nazismo e racista. A Advocacia-Geral da União já ingressou na Justiça Federal para obrigar o Telegram a remover canais nos quais teorias conspiratórias sobre vacinação são disseminadas e a adulteração de certificados de vacinação é comercializada.
O impacto desse ecossistema de desinformação vai além da fraude individual. A desinformação sobre a segurança e eficácia das vacinas leva ao medo e à desconfiança da população, contribuindo para a redução das coberturas vacinais e o aumento do risco de reintrodução de doenças. As vacinas evitam, anualmente, mais de 3,5 milhões de mortes em todo o mundo. Em 2025, as desinformações sobre vacinas ainda circulam 122,5 vezes mais do que em 2019.
Na Bahia, o cenário é preocupante. Segundo informações divulgadas pelo A Tarde, entre 2016 e 2025 o estado não atingiu nenhuma das metas de vacinação do público infantil. A meta ideal é de 95% da população vacinada, patamar necessário para garantir a imunidade coletiva contra doenças como o sarampo — e esse índice não tem sido alcançado de forma consistente. Em 2024, a cobertura com duas doses da vacina tríplice viral ficou em cerca de 91%, caindo ainda mais no início de 2025, chegando a aproximadamente 84,9%.
O epidemiologista Márcio Natividade, coordenador do grupo de Economia, Tecnologia e Inovação em Saúde do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA, compara a desinformação a uma infecção de alto potencial de disseminação. Segundo a reportagem do A Tarde, ele alerta que doenças cuja única forma de contenção é a vacina voltam a circular quando as coberturas caem, gerando mais hospitalizações e mortes. O objetivo final da pesquisa é medir com precisão esse impacto e propor estratégias concretas de enfrentamento.







