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Saúde

Pesquisa da UFBA mapeia mercado ilegal de certificados vacinais falsos no Telegram e alerta para risco à saúde pública

Estudo financiado pelo CNPq identificou mais de 86 mil postagens de desinformação em canais da plataforma; comprovantes são vendidos por até R$ 200 via Pix

Redação ChicoSabeTudoRedação · Saúde
19 de maio, 2026 · 09:34 4 min de leitura
Mãos segurando smartphone com o aplicativo Telegram aberto, simbolizando a venda de passaportes vacinais falsos em grupos da plataforma
Mãos segurando smartphone com o aplicativo Telegram aberto, simbolizando a venda de passaportes vacinais falsos em grupos da plataforma

Uma pesquisa em andamento na Universidade Federal da Bahia (UFBA), financiada pelo Ministério da Saúde por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), expôs um mercado ilegal que muita gente desconhece: a venda de passaportes vacinais falsos dentro de grupos do Telegram. O preço médio cobrado varia entre R$ 150 e R$ 200, pagos por Pix, e o "serviço" é direcionado a quem quer driblar exigências de vacinação — como as de escolas e empregadores — sem tomar a vacina de fato.

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Os pesquisadores responsáveis pelo estudo mapearam, somente no Telegram, 86.568 postagens de desinformação e teorias da conspiração relacionadas à vacinação, compartilhadas entre 542 canais e 286 grupos da plataforma no período de 1º de abril de 2025 a 31 de março de 2026, segundo informações divulgadas pelo portal A Tarde. Dentro desse ambiente, encontraram a oferta aberta de comprovantes falsos de vacinação.

O esquema funciona de forma simples: alguém anuncia o serviço no grupo, o interessado fornece nome e CPF, realiza o pagamento via Pix e recebe o documento. A linguagem dos anúncios é publicitária, com promessa de que o registro aparecerá em sistemas oficiais. Criminosos usam o Telegram para vender cartões de vacinação fraudados, com registro oficial no sistema do SUS, a pessoas que acreditam em teorias conspiratórias compartilhadas nesses mesmos grupos.

Inserir dados falsos em sistema de informação da administração pública é crime federal, com pena de dois a 12 anos de prisão e multa. Quem contrata o serviço pode ser enquadrado no crime de uso de documento falso, com penas que chegam a seis anos de prisão. Além do risco legal, quem compra o serviço entrega CPF e nome completo a criminosos. A pessoa que contrata o esquema também fica suscetível a ter seus dados usados de maneira indevida — com nome completo e CPF, golpistas podem cometer fraudes bancárias e até extorsão.

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O Telegram se tornou o centro desse ecossistema por razões estruturais. O aplicativo de mensagem é reconhecido por ter uma política de moderação de conteúdo quase nula e pouca transparência para com as autoridades brasileiras. Segundo informações divulgadas pelo A Tarde, o coordenador do Laboratório de Humanidades Digitais da UFBA, Leonardo Nascimento, explica que são usados "bots" — robôs para envio padronizado de mensagens — para disparar os anúncios sempre nos mesmos horários e na mesma quantidade por dia, atingindo simultaneamente centenas de grupos. As outras redes sociais, como YouTube, Instagram e WhatsApp, funcionam como porta de entrada para esses grupos extremistas.

Em alguns dos canais, além da desinformação sobre vacinas e da venda ilegal de passaportes vacinais, circulam livremente outros conteúdos ilícitos, de teor antissemita, de apologia ao nazismo e racista. A Advocacia-Geral da União já ingressou na Justiça Federal para obrigar o Telegram a remover canais nos quais teorias conspiratórias sobre vacinação são disseminadas e a adulteração de certificados de vacinação é comercializada.

O impacto desse ecossistema de desinformação vai além da fraude individual. A desinformação sobre a segurança e eficácia das vacinas leva ao medo e à desconfiança da população, contribuindo para a redução das coberturas vacinais e o aumento do risco de reintrodução de doenças. As vacinas evitam, anualmente, mais de 3,5 milhões de mortes em todo o mundo. Em 2025, as desinformações sobre vacinas ainda circulam 122,5 vezes mais do que em 2019.

Na Bahia, o cenário é preocupante. Segundo informações divulgadas pelo A Tarde, entre 2016 e 2025 o estado não atingiu nenhuma das metas de vacinação do público infantil. A meta ideal é de 95% da população vacinada, patamar necessário para garantir a imunidade coletiva contra doenças como o sarampo — e esse índice não tem sido alcançado de forma consistente. Em 2024, a cobertura com duas doses da vacina tríplice viral ficou em cerca de 91%, caindo ainda mais no início de 2025, chegando a aproximadamente 84,9%.

O epidemiologista Márcio Natividade, coordenador do grupo de Economia, Tecnologia e Inovação em Saúde do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA, compara a desinformação a uma infecção de alto potencial de disseminação. Segundo a reportagem do A Tarde, ele alerta que doenças cuja única forma de contenção é a vacina voltam a circular quando as coberturas caem, gerando mais hospitalizações e mortes. O objetivo final da pesquisa é medir com precisão esse impacto e propor estratégias concretas de enfrentamento.

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