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Saúde

Psiquiatra alerta: burnout pode chegar sem crise, disfarçado de mau humor e insônia no trabalho

Especialista explica por que o esgotamento profissional silencioso engana trabalhadores e líderes — e aponta os sinais que o corpo dá antes do colapso.

Redação ChicoSabeTudoRedação · Saúde
19 de maio, 2026 · 09:38 3 min de leitura
Trabalhador com expressão de cansaço em frente a computador, representando sintomas do burnout silencioso
Trabalhador com expressão de cansaço em frente a computador, representando sintomas do burnout silencioso

O cansaço que insiste depois do fim de semana, o mau humor que virou padrão, a insônia que ninguém relaciona ao trabalho. Para o médico psiquiatra Dr. Freddy Mundaka, fundador do Instituto Mundaka, esses sinais discretos podem ser a face mais perigosa do esgotamento profissional — justamente porque passam despercebidos por meses.

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"O burnout moderno nem sempre aparece como crise", alerta o especialista. "Muitas vezes ele vai surgir como irritabilidade constante, dificuldade de concentração, insônia, queda de performance, sensação de vazio e procrastinação. O profissional continua funcionando, mas vai perdendo energia, criatividade e a saúde mental aos poucos."

Esse retrato é especialmente preocupante quando se observam os dados nacionais. Em 2025, mais de 546 mil trabalhadores brasileiros foram afastados do trabalho por transtornos mentais, com ansiedade, depressão e burnout entre as principais causas desse recorde de licenças. Dados do Ministério da Previdência Social apontam que os benefícios por incapacidade temporária relacionados ao esgotamento profissional cresceram 823% em quatro anos — de 823 afastamentos em 2021 para 7.595 em 2025.

E o Nordeste está longe de ser exceção. As regiões Sudeste e Nordeste concentram juntas a maioria dos casos notificados no Brasil, com o Sudeste respondendo por 52,8% e o Nordeste por 29,8% das ocorrências. Em Alagoas, segundo informações divulgadas pelo portal CadaMinuto, os transtornos de ansiedade e a depressão já figuram entre as principais causas de afastamento — mas há um contingente ainda maior de profissionais que sofrem sem diagnóstico.

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Segundo Dr. Mundaka, um dos maiores riscos é a normalização das "muletas" químicas que o trabalhador adota para dar conta da rotina: o abuso de cafeína para se manter acordado, o álcool à noite para tentar desligar a cabeça, e a automedicação para tratar dores e problemas gastrointestinais. "Vivemos uma cultura de alta cobrança, uma hiperconectividade e pouca educação emocional", descreve o médico. "O paciente chega ao consultório esgotado emocionalmente, com sintomas físicos importantes, mas sem perceber que o ambiente de trabalho se tornou o fator central do seu adoecimento."

A situação se agrava nas lideranças. Diretores, gerentes e coordenadores sofrem uma pressão dupla: precisam entregar metas agressivas enquanto gerenciam crises humanas nas equipes. O resultado, segundo o especialista, compromete diretamente a tomada de decisão. "Líder emocionalmente exausto toma decisões piores", enfatiza. "O sono ruim e o estresse crônico impactam diretamente a memória, a inteligência emocional e a tolerância ao conflito."

Com a transição da CID-10 para a CID-11, o burnout deixou de ser descrito de forma genérica e passou a ser reconhecido oficialmente como um fenômeno estritamente ocupacional, resultante do estresse crônico no local de trabalho. Ainda assim, a falta de informação faz com que muitos trabalhadores encarem o esgotamento como fraqueza pessoal, adiando a busca por ajuda até o colapso.

Para reverter esse quadro, Dr. Mundaka defende que gestores adotem "microestratégias de proteção" no dia a dia: pausas reais durante o expediente, higiene do sono, atividade física e, principalmente, a construção de uma cultura corporativa onde pedir ajuda não seja sinal de fraqueza. Segundo informações divulgadas pelo CadaMinuto, o especialista também desenvolveu o ecossistema MC 360, ferramenta voltada para a leitura precoce de riscos antes que o sofrimento se transforme em afastamento.

O impacto do burnout já chegou ao Judiciário: em 2024, o termo apareceu em 17,2 mil processos trabalhistas; em 2025, foram 20,1 mil menções, com valor médio estimado em R$ 286 mil por causa e passivo total de R$ 3,63 bilhões para as empresas. O recado do especialista é direto: "Cuidar da própria saúde mental não é um luxo, é uma estratégia operacional."

Sinais de alerta: irritabilidade constante com colegas ou familiares, sensação de vazio, desmotivação profunda, procrastinação frequente, insônia persistente, dores de cabeça recorrentes e alterações gastrointestinais sem causa aparente. Diante de qualquer combinação desses sintomas, a recomendação é buscar avaliação médica ou psicológica sem esperar a crise chegar.

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