O Conselho Estadual de Saúde da Bahia (CES-BA) acendeu um sinal de alerta para a Secretaria Municipal de Saúde de Salvador (SMS): ampliar a vacinação contra a gripe para toda a população é bem-vindo, mas não pode acontecer sem um esforço concentrado para proteger quem mais precisa. O órgão questiona a ausência de estratégias mais efetivas para alcançar idosos e crianças, que seguem com baixa cobertura vacinal e concentram os maiores riscos de agravamento e morte por doenças respiratórias.
Os números explicam a preocupação. Segundo dados da própria SMS, a vacinação de crianças de seis meses a menores de seis anos alcançou apenas 23,5% de cobertura no município, enquanto entre os idosos acima de 60 anos, o índice se aproxima de 36% — bem abaixo da meta nacional de 90% para grupos prioritários.
O cenário epidemiológico agrava a urgência. As crianças de até 9 anos são as mais contaminadas por vírus respiratórios na Bahia e concentram 69,7% — cerca de 2.995 — dos 4.247 casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) registrados no estado em 2026. Além disso, 31 crianças morreram em razão das SRAGs até o dia 25 de maio deste ano.
Entre os idosos, o retrato é igualmente grave. Segundo levantamento obtido pelo portal A TARDE, 91 pessoas com mais de 60 anos morreram em decorrência das SRAGs em 2026, representando 59,1% de todos os óbitos registrados no estado. Dados da Secretaria Estadual de Saúde (Sesab) apontam que a letalidade cresce com a idade, chegando a 16,8% entre pessoas com 80 anos ou mais.
A pressão sobre a capital é grande. Atualmente, cerca de 67% das hospitalizações por SRAG em Salvador estão concentradas em crianças menores de 10 anos. A SMS destaca que Salvador, por ser a principal referência assistencial do estado, absorve demanda regional por atendimentos, especialmente nos períodos de maior circulação viral, com fluxo de pacientes de outras cidades baianas.
Dois vírus associados a quadros graves de pneumonia infantil chamam atenção. Os casos provocados pelo Vírus Sincicial Respiratório (VSR) e pelo metapneumovírus cresceram quase 77% em relação ao mesmo período de 2025. O VSR saltou de 359 para 745 registros, enquanto o metapneumovírus passou de 62 para 421 casos. A Fiocruz confirma essa tendência: o boletim InfoGripe alertou para o aumento de casos de SRAG em crianças menores de 2 anos no Nordeste, com o crescimento das hospitalizações pelo VSR como principal fator.
Para o CES-BA, o problema não está apenas na oferta de vacinas, mas na capacidade do poder público de chegar até as pessoas mais vulneráveis. O conselho defende o fortalecimento das equipes de Saúde da Família, a ampliação da busca ativa em domicílios e o reforço das campanhas de conscientização — ações que vão além de simplesmente abrir mais postos de vacinação. A SMS não se manifestou até a publicação da reportagem original.
A Bahia está entre os estados com tendência de crescimento de casos de SRAG. A Fiocruz apontou que a Bahia está com incidência de SRAG em nível de alerta ou risco, com indícios de crescimento na tendência de longo prazo até a Semana Epidemiológica 19. Das principais infecções causadoras de SRAG, três podem ser prevenidas por vacinas disponíveis no SUS: Influenza A, Influenza B e Covid-19, com prioridade para crianças de 6 meses a menores de 6 anos, idosos e gestantes.
A meta nacional, segundo o Ministério da Saúde, é vacinar pelo menos 90% dos grupos prioritários. Crianças, gestantes e idosos com 60 anos ou mais são os públicos centrais dessa meta. O desafio, como aponta o CES-BA, está em transformar essa meta em realidade para quem mais precisa da proteção.







