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Saúde

Canetas emagrecedoras podem ajudar no combate a vícios, revela estudo

Um estudo da Washington University School of Medicine indica que medicamentos da classe GLP-1, usados para diabetes e obesidade, podem ser aliados no tratamento e prevenção de diversos vícios, como álcool, nicotina e opioides.

Redação ChicoSabeTudoRedação · Saúde
06 de março, 2026 · 19:39 3 min de leitura
GLP-1 é capaz de mitigar vícios (Imagem: Alones Creative/iStock)
GLP-1 é capaz de mitigar vícios (Imagem: Alones Creative/iStock)

Aqueles medicamentos usados para controlar o diabetes e que ganharam fama por ajudar no emagrecimento, como a semaglutida e a tirzepartida, podem ter um novo superpoder: auxiliar no tratamento e na prevenção de diversos vícios. Uma pesquisa feita por cientistas da Washington University School of Medicine, em St. Louis, nos Estados Unidos, acende uma luz de esperança para quem luta contra a dependência química.

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O grande achado é que essas substâncias, da classe GLP-1, não atacam apenas um vício específico, mas sim uma via biológica comum que todos os vícios compartilham no cérebro. É como se elas atuassem na raiz do problema, e não só nos sintomas.

Como funciona essa ação no cérebro?

Para entender melhor, o médico psiquiatra Roberto Ratkze, coordenador da pós-graduação do Hospital Heidelberg, explicou o mecanismo ao g1 de um jeito fácil de entender. Ele conta que nosso cérebro tem um 'sistema de recompensa', uma espécie de 'núcleo do prazer' que nos faz sentir bem ao realizar certas atividades. Nos vícios, esse sistema é 'sequestrado' pela substância ou comportamento.

“Existem fatores biológicos individuais e comuns nas dependências químicas. Uma via comum é a dopaminérgica mesolímbica, que vai da área tegmental ventral até o núcleo accumbens, que é considerado o núcleo do prazer, fazendo parte do sistema de recompensa cerebral. Aparentemente, há receptores GLP-1 na área tegmentar ventral, isto é, a via do prazer é modulada pelos análogos GLP-1.”

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Os pesquisadores descobriram que os medicamentos GLP-1 agem em receptores cerebrais que modulam essa 'via do prazer'. Isso faz com que a obsessão e o impulso de buscar a droga diminuam, de forma parecida como a medicação acalma a vontade constante de comer em pessoas com obesidade.

O que o estudo observou?

A equipe de pesquisa analisou os registros de saúde de mais de 600 mil ex-membros das Forças Armadas dos Estados Unidos, todos com diabetes tipo 2 e acompanhados por três anos. Os resultados foram animadores: quem usava medicamentos GLP-1 tinha um risco menor de desenvolver transtornos de uso de substâncias viciantes.

Para quem já tinha esses transtornos, a boa notícia é que o risco de problemas mais graves, como overdose e até mesmo a morte, também diminuiu. Além disso, o estudo acompanhou mais de 500 mil pessoas sem histórico de dependência e viu que aqueles que usaram GLP-1 tiveram um risco 14% menor de desenvolver um vício. A eficácia variou um pouco dependendo da substância:

  • Opioides: 25% de redução no risco.
  • Cocaína: 20% de redução no risco.
  • Nicotina: 20% de redução no risco.
  • Álcool: 18% de redução no risco.

Um destaque importante é o potencial para o tratamento do vício em metanfetamina, que hoje não conta com um tratamento medicinal específico.

Cautela é fundamental, alertam especialistas

Apesar dos resultados promissores, os cientistas e outros especialistas pedem cautela. O médico e professor de Neurociências e Psiquiatria da UFMG, Almir Tavares, alerta:

“É possível que essas drogas, baseadas no mecanismo de ação dos hormônios incretínicos, se tornem importantes coadjuvantes no tratamento de adicções (vícios) a drogas ou jogos e possam modificar outros comportamentos humanos. Serão necessárias mais investigações a esse respeito. Temos que tomar um pouco de cuidado com o excesso de entusiasmo e com o impulsionamento mercadológico na venda de produtos.”

A pesquisa atual foi observacional, ou seja, analisou dados existentes. Agora, o próximo passo é realizar ensaios clínicos específicos para testar o GLP-1 como tratamento para vícios em pessoas que não têm diabetes ou obesidade. Isso é crucial para confirmar a eficácia e a segurança do medicamento nessa nova aplicação.

Por enquanto, médicos e pacientes devem manter a cabeça fria. Os tratamentos já existentes para dependência química continuam sendo a primeira e mais segura opção, e o GLP-1 não deve ser visto como uma solução imediata. É uma porta que se abre para o futuro, mas que ainda precisa ser explorada com responsabilidade e muita pesquisa.

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