Medir a pressão arterial em casa virou rotina para milhões de brasileiros, especialmente quem já tem diagnóstico de hipertensão ou monitora os números por orientação médica. Mas um detalhe simples — e amplamente ignorado — pode fazer toda a diferença no resultado: a posição em que o braço é apoiado durante a aferição.
Pesquisadores da Faculdade de Medicina Johns Hopkins, nos Estados Unidos, descobriram que a posição do braço durante a aferição pode induzir a um diagnóstico errado. O estudo foi publicado no Journal of the American Medical Association (JAMA), uma das publicações científicas mais prestigiosas do mundo.
A investigação analisou a pressão arterial de 133 pessoas com o braço em três posições: no colo, apoiado em uma superfície ou pendurado ao lado do corpo. Apoiar o braço no colo durante a medição superestimou a pressão sistólica em cerca de 3,9 mmHg, enquanto deixá-lo pendurado ao lado do corpo elevou a leitura em até 6,5 mmHg.
Os autores destacam que essa diferença pode ser suficiente para transformar um resultado normal em um falso diagnóstico de hipertensão, reforçando que apoiar o braço em uma superfície firme, na altura do coração, é um dos cuidados mais importantes durante a aferição.
A autora principal do estudo, Tammy Brady, disse que as diferentes posições dos braços são frequentemente verificadas na prática clínica, possivelmente porque os médicos não estejam cientes sobre essa diferença. "Esse grau de erro na aferição de pressão pode levar a um número substancial de pessoas sendo diagnosticadas com hipertensão", afirmou Tammy Brady.
A pressão arterial alta pode não causar sintomas, mas é uma das principais causas de infarto, AVC e doença renal crônica. Por isso, muitos pacientes são orientados a medir a pressão em casa. No entanto, medidas incorretas podem levar a diagnósticos errados, uso desnecessário de medicamentos ou falta de tratamento quando ele é necessário.
A frequência de diagnóstico médico de hipertensão na população adulta das capitais brasileiras e Distrito Federal é de 25,2%, sendo maior entre mulheres (26,2%) do que entre homens (24,1%). Com tantos brasileiros dependendo do monitoramento em casa, o risco de leituras incorretas é real e abrangente.
Outros erros também comprometem o resultado. Sentar-se com as pernas cruzadas, por exemplo, pode aumentar a pressão das veias nas artérias e, portanto, alterar o resultado. Conversar ou qualquer forma de movimento durante a medição pode elevar os valores registrados, especialmente os da pressão sistólica, porque a fala ou o movimento aumentam temporariamente a atividade cardiovascular, interferindo no resultado.
Para garantir uma leitura confiável, o protocolo é simples: é recomendado descansar por cinco minutos, sentar em cadeira com encosto, manter os pés apoiados no chão e apoiar o braço sobre uma mesa, na altura do coração. O consumo de café, cigarro e bebida alcoólica também interfere, e a recomendação geral é evitar essas substâncias por pelo menos 30 minutos antes do procedimento.
Os autores recomendam que as pessoas descansem por cinco minutos antes de fazer a leitura inicial e realizem uma segunda leitura vários minutos depois para verificar se a aferição foi precisa. Seguir esses passos reduz as chances de um número errado virar um diagnóstico desnecessário — e de um remédio que nunca precisou ser tomado.







