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Política

X, de Elon Musk, é acusado de burlar sanções dos EUA e vender 'selo azul' ao Irã

Um relatório aponta que o X, plataforma de Elon Musk, estaria vendendo contas premium a autoridades iranianas, levantando dúvidas sobre a eficácia das sanções dos EUA e a postura da empresa.

Redação ChicoSabeTudoRedação · Política
13 de fevereiro, 2026 · 02:01 4 min de leitura
Elon Musk se opões publicamente ao regime, mas faz o oposto com sua rede social (Imagem: Algi Febri Sugita / Shutterstock)
Elon Musk se opões publicamente ao regime, mas faz o oposto com sua rede social (Imagem: Algi Febri Sugita / Shutterstock)

Uma denúncia grave aponta que o X, a plataforma de redes sociais de propriedade de Elon Musk, estaria vendendo contas premium – aquelas com o famoso “selo azul” – para autoridades e veículos de comunicação estatais do governo iraniano. A acusação, feita pelo Tech Transparency Project (TTP) e revelada pela WIRED, coloca Elon Musk em uma posição delicada, já que ele publicamente critica o regime do Irã e apoia os manifestantes locais.

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O relatório do TTP identificou mais de 20 perfis no X que, supostamente, pertencem a funcionários do governo iraniano, agências governamentais e mídias estatais, todos ostentando o selo azul de verificação. Esse detalhe é crucial porque, enquanto Musk oferece a internet Starlink gratuitamente para os cidadãos iranianos burlarem o bloqueio do governo, sua plataforma estaria lucrando com os mesmos líderes que reprimem o povo.

Um contrassenso perigoso

A situação é descrita como um contrassenso. De um lado, Elon Musk usa o X para chamar o Líder Supremo do Irã, Aiatolá Ali Khamenei, de “delirante”. De outro, sua empresa é acusada de permitir que mensagens e propaganda do governo iraniano sejam amplificadas artificialmente, alcançando mais pessoas devido aos recursos extras das contas premium pagas.

“O fato de Elon Musk não apenas dar visibilidade a esses indivíduos, mas também aceitar o dinheiro deles para impulsionar seu conteúdo por meio dessas assinaturas premium e oferecer recursos extras, significa que ele está minando as sanções que os EUA e o governo Trump estão aplicando”, afirmou Katie Paul, diretora do TTP, à WIRED.

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As sanções dos Estados Unidos contra o Irã são rigorosas. Embora exista uma exceção que permite a empresas de tecnologia oferecerem plataformas para que cidadãos iranianos se comuniquem, essa “brecha” é clara: os serviços devem ser “disponíveis publicamente” e “gratuitos”. Vender contas premium para funcionários do governo iraniano estaria fora dessa permissão.

Autoridades iranianas com selo azul

Vários nomes de destaque do governo iraniano foram citados no relatório do TTP. Um deles é Ali Larijani, assessor sênior do líder supremo do Irã, com mais de 120 mil seguidores. Ele é considerado um dos “arquitetos da brutal repressão aos protestos pacíficos” pelo Tesouro dos EUA.

Outro exemplo é Ali Akbar Velayati, membro do círculo íntimo de Khamenei e ex-ministro das Relações Exteriores do Irã. Velayati, que já foi sancionado pelo Tesouro em 2019, também teve seu selo azul removido após a denúncia. Um caso ainda mais alarmante foi o de Ali Ahmadnia, chefe de comunicações do presidente do Irã, cuja conta premium continha um link para que as pessoas enviassem dinheiro a ele via bitcoins.

“Poderia ser considerada uma transação proibida com bens bloqueados do governo do Irã, bem como uma exportação proibida de serviços financeiros para o Irã, de acordo com o Regulamento de Transações e Sanções Iranianas”, explicou Kian Meshkat, advogado especializado em sanções econômicas dos EUA, à WIRED.

Essa funcionalidade, que aparentemente não redireciona mais para a conta de bitcoins, levantou sérias preocupações sobre a conformidade do X com as leis de sanções.

Protestos e repressão no Irã

A polêmica ganha ainda mais peso no contexto dos protestos que acontecem no Irã desde o fim de dezembro. Milhares de manifestantes têm ido às ruas contra a crise econômica e a desvalorização da moeda, pedindo a mudança do regime. A resposta do governo tem sido dura, com muitos presos ou mortos.

Em um momento, Gholamhossein Mohseni-Ejei, chefe do judiciário iraniano, que possuía um selo azul, escreveu no X: “Desta vez, não mostraremos misericórdia aos manifestantes”. Sua conta também perdeu o selo após o contato da WIRED.

Elon Musk, por outro lado, tentou demonstrar apoio aos manifestantes. Dias após a denúncia, o X trocou o emoji da bandeira iraniana para uma versão anterior à revolução de 1979 e Musk anunciou que qualquer pessoa com Starlink poderia ter acesso gratuito à internet, já que o governo havia bloqueado quase toda a conexão. No entanto, enquanto ele fazia isso, as contas premium do governo iraniano, sem controle, continuavam a disseminar sua própria narrativa.

X sob o microscópio

Não é a primeira vez que o X (ou o antigo Twitter sob a gestão de Musk) é alvo de acusações de burlar sanções. Em 2025, a senadora Elizabeth Warren já havia alertado o Tesouro sobre a venda de selos de verificação a terroristas sancionados pelos EUA.

“Agora, parece que o X pode estar permitindo que funcionários do governo iraniano, sujeitos a sanções, lucrem com sua plataforma”, disse Warren à WIRED, enfatizando que “o governo Trump continua a minar nossa segurança nacional” ao não tomar medidas básicas para fazer cumprir as sanções.

Apesar das tentativas de contato da WIRED, o X não se manifestou. Contudo, poucas horas depois da reportagem sinalizar as contas das autoridades iranianas, alguns selos azuis foram misteriosamente removidos. O Departamento do Tesouro da Casa Branca, por sua vez, afirmou que “leva alegações de conduta passível de sanção extremamente a sério”, sem comentar casos específicos.

A controvérsia ressalta um desafio crescente para as plataformas digitais, que precisam equilibrar a liberdade de expressão com a conformidade legal e as complexidades da política internacional.

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