Uma disputa intensa movimenta os bastidores do Partido Social Democrático (PSD) na Bahia. O embate principal, travado na última semana, colocou de um lado o presidente estadual da sigla, senador Otto Alencar, e do outro seu ex-aliado, Angelo Coronel. Contudo, a verdadeira força por trás dos movimentos e decisões, com potencial para redefinir os caminhos do partido não só na Bahia, mas em todo o Brasil, parece vir de Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD.
Muita gente considera que a filiação de Ronaldo Caiado ao partido, com o aval de Kassab, foi apenas o começo de uma guerra política maior. Diferente do que acontecia até 2022, quando o PSD era visto como um anexo de outras legendas, Kassab iniciou uma ofensiva poderosa neste ciclo eleitoral. O PSD sempre se posicionou no centro, com habilidade para se alinhar a qualquer governo, seja Dilma Rousseff, Michel Temer, Jair Bolsonaro ou Luiz Inácio Lula da Silva. Essa capacidade de adaptação, quase como um camaleão, sempre foi uma marca de Kassab e do partido. Pelo menos, até agora.
A ambição nacional de Kassab
Nas eleições de 2022, o PSD elegeu dois governadores: Ratinho Jr. no Paraná e Fábio Mitidieri em Sergipe. Aproveitando a fragilidade do PSDB, o partido também atraiu Eduardo Leite do Rio Grande do Sul e Raquel Lyra de Pernambuco. Mais recentemente, a chegada de Ronaldo Caiado, governador de Goiás, e Marcos Rocha, governador de Rondônia, mostra a força da articulação de Kassab. É importante notar que metade desses governadores são vistos como possíveis candidatos à presidência, como Ratinho Jr., Eduardo Leite e Ronaldo Caiado.
É nesse cenário de expansão nacional que o PSD da Bahia se vê encurralado. Por mais que Otto Alencar tenha declarado publicamente seu alinhamento com Lula “até o fim” no estado, há quem diga nos bastidores que a situação é mais complexa. É improvável que, com um palanque nacional tão robusto em vista, a Bahia fique de fora da articulação para um futuro candidato à presidência. Por isso, a aposta é que Otto pode ter vencido uma batalha local, mas a guerra eleitoral ainda está longe de terminar.
A disputa Otto x Coronel e suas consequências
Dentro do próprio PSD, fontes indicam que a possível reeleição de Angelo Coronel foi sacrificada contra a vontade de muitos filiados. Otto garantiu apoio à reeleição do governador Jerônimo Rodrigues (PT), mesmo que isso significasse deixar um correligionário importante de fora da chapa majoritária. Isso fez com que a imagem de “traidor” começasse a circular, especialmente no interior do estado.
Em uma reviravolta, Angelo Coronel se encontrou com Kassab logo após a filiação de Caiado. Esse movimento estratégico buscou inverter a narrativa: de suposto traidor, Otto passou a ser visto como o traído, o que poderia justificar um afastamento de Coronel para a oposição. Para o PT e o grupo de Jerônimo, esse conflito interno foi bem-vindo, pois abriu caminho para a chapa “puro-sangue” com Jaques Wagner e Rui Costa buscando vagas no Senado. Ou seja, a briga do PSD veio a calhar.
Otto Alencar fez questão de pedir declarações públicas de apoio de seus aliados. Muitos deles, apesar de insatisfeitos por verem Coronel escanteado, preferiram não confrontar o presidente do partido abertamente, cientes dos riscos. Publicamente, só havia sorrisos e vídeos “espontâneos” de visitas e alianças inquebráveis. Nos bastidores, porém, a tensão era palpável.
No entanto, a grande ambição nacional do PSD de Kassab pode mudar tudo novamente. Com a possibilidade de lançar uma candidatura de centro-direita forte – e até mesmo a chance, ainda que remota, de ACM Neto migrar para a legenda –, manter a liberdade e a independência de Otto na Bahia pode não ser tão simples. Diante do crescimento expressivo do partido em nível nacional, com potenciais candidatos ao Planalto, governos (incluindo Minas Gerais, onde o vice de Romeu Zema deve tentar a sucessão pelo PSD) e bancadas relevantes no Congresso, vale a pena bancar um alinhamento automático com o PT baiano? Essa é uma pergunta que nem Otto, nem Coronel, muito menos o PT da Bahia, conseguem responder. A palavra final, ao que tudo indica, virá de Gilberto Kassab, o homem que realmente dita os rumos da República.







