Um professor de Salvador usou as redes sociais para denunciar a decisão da Prefeitura de Salvador de incluir filé de cação na merenda da rede municipal de ensino. Em vídeo publicado no Instagram, Jorge Sales afirmou que o prefeito Bruno Reis (União Brasil) tem "ignorado alertas científicos" consolidados sobre os riscos do consumo desse alimento para crianças.
Segundo informações divulgadas pelo portal BNews, a prefeitura teria adquirido 24 toneladas do pescado, com investimento de R$ 576 mil. A compra foi revelada com exclusividade pelo veículo nesta semana, e a denúncia do professor ganhou repercussão nas redes sociais logo em seguida.
O educador fundamentou a crítica em estudo publicado em 2024 pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Pesquisadores da Fiocruz e de instituições parceiras publicaram uma revisão científica reunindo evidências sobre a contaminação por metais em tubarões e outros peixes cartilaginosos. O estudo destacou que populações vulneráveis, como gestantes, idosos, bebês e crianças, podem ser especialmente suscetíveis aos efeitos desses contaminantes, incluindo impactos sobre o desenvolvimento neurológico e cognitivo.
Como predadores de topo de cadeia, os tubarões tendem a concentrar em seus tecidos altos níveis de metais pesados, como o mercúrio e o arsênio — elementos que podem prejudicar a saúde humana se ingeridos em grandes quantidades. Pesquisadora da Fiocruz Rachel Ann Hauser-Davis alertou que "o risco é maior para crianças, que têm menor peso corporal e estão ainda em desenvolvimento".
O impacto do mercúrio no organismo infantil é amplamente documentado pela ciência. Como o cérebro do feto ainda está em formação, ele é muito mais sensível ao efeito do metilmercúrio. "As lesões em crianças costumam ser numerosas e mais graves e afetam principalmente a parte cognitiva", explicam pesquisadores da Fiocruz. Danos que ocorrem nessa área durante o período pré-natal ou nos cinco primeiros anos de vida podem levar à diminuição do desempenho intelectual ao longo da vida.
O caso de Salvador não é isolado. Órgãos dos governos federal, estadual e municipal do Brasil estão comprando carne de tubarão em grande escala e servindo-a em milhares de escolas, hospitais, prisões e outras instituições públicas, levantando preocupações ambientais e de saúde pública. O Brasil é o maior consumidor de carne de tubarão do mundo. Investigações jornalísticas já identificaram três pedidos de licitações para a aquisição de 132 toneladas de cação em Salvador desde 2021.
Em outros estados, a pressão científica e judicial já produziu resultados concretos. O estado do Rio de Janeiro baniu a inclusão de carne de tubarão na merenda escolar de 1.200 escolas públicas. Além disso, após ação judicial iniciada no Paraná, instituições federais foram proibidas de comprar carne de tubarão e raia comercializada genericamente como "cação" sem identificação completa da espécie e informações de origem.
O professor Jorge Sales cobrou coerência das autoridades municipais. Segundo informações do BNews, ele questionou por que decisões da Justiça Federal e alertas de institutos como a Fiocruz seriam ignorados na elaboração do cardápio escolar de Salvador, defendendo que a merenda precisa ser "sinônimo de segurança e nutrição, não de risco".
Em nota, a Secretaria Municipal de Educação de Salvador afirmou, segundo o BNews, que o filé de cação integra os cardápios elaborados por nutricionistas "em conformidade com as diretrizes do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e com a legislação sanitária, nutricional e ambiental vigente". Apesar dos alertas científicos, o "cação" continua presente em políticas públicas de alimentação em todo o país.







