Livre desde setembro de 2024, o ex-estudante de Medicina Mateus da Costa Meira, de 51 anos, passou a frequentar regularmente o Shopping Barra, em Salvador. A presença dele no centro comercial — um dos maiores da capital baiana, com mais de 300 lojas e oito salas de cinema — já chegou a ser registrada em fotos circuladas por clientes em grupos de WhatsApp, segundo informações divulgadas pela coluna True Crime, do jornal O Globo, assinada por Ullisses Campbell.
O detalhe que mais incomoda frequentadores é o cenário: Mateus tem sido visto justamente em cafés, livrarias e nas bilheterias das salas de cinema do shopping. É exatamente esse tipo de ambiente o mesmo que ele transformou em palco de um dos crimes mais chocantes da história recente do Brasil.
Em 3 de novembro de 1999, o então estudante de medicina invadiu uma sala de cinema do Shopping Morumbi, em São Paulo, durante a exibição do filme "Clube da Luta". Ele entrou com uma bolsa na qual levava uma submetralhadora 9 milímetros, sentou na primeira fileira, levantou-se, foi ao banheiro, atirou contra um espelho e voltou para a sala, onde abriu fogo. Durante cerca de três minutos, Mateus disparou de 60 a 80 vezes.
Três pessoas morreram no ataque: a fotógrafa Fabiana Lobão Freitas, de 25 anos, que morreu ainda na sala; a publicitária Hermè Luísa Jatobá Vadasz, de 46; e o economista Júlio Maurício Zeimaitlis, de 28. Outras pessoas ficaram feridas.
Em 2004, Meira foi condenado a 120 anos de prisão pelos crimes. A pena foi reduzida posteriormente para 48 anos e nove meses em regime fechado. Em fevereiro de 2009, ele foi transferido do Presídio de Tremembé, no interior de São Paulo, para a Penitenciária Lemos Brito, em Salvador, onde nasceu. Ainda naquele ano, tentou matar a golpes de tesoura um companheiro de cela.
Em 2011, por decisão da 1ª Vara do Tribunal do Júri de Salvador, respaldada em laudo que apontou esquizofrenia, Meira foi considerado inimputável e transferido para um hospital psiquiátrico da cidade. Ele só foi liberado após ser considerado "apto para desinternação", segundo laudo dos peritos do Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico do Estado da Bahia.
A decisão determinou a desinternação pelo prazo de um ano, com condicionantes de seguir tratamento extra-hospitalar, manter bom relacionamento com amigos, familiares e estranhos, e permanecer em recolhimento domiciliar noturno. Uma das exigências era que ele morasse com os pais. No entanto, segundo informações divulgadas pela coluna True Crime, apurou-se que Mateus vive sozinho em uma quitinete, a poucos quarteirões do Shopping Barra — ou seja, em descumprimento da condição judicial.
A presença de Mateus no shopping já foi confirmada por clientes e por pessoas que o conhecem. Um médico identificado como ex-colega de infância relatou tê-lo visto várias vezes na bilheteria do cinema e afirmou ter ficado com medo ao notar que ele carregava uma mochila. Uma comerciante do local também contou que a informação se espalhou rapidamente entre vendedores, gerando apreensão generalizada.
Segundo informações da mesma coluna, avaliações realizadas durante o período de internação registraram ausência de empatia em relação às vítimas. Em entrevista a uma psiquiatra durante o cumprimento da medida de segurança, Mateus chegou a afirmar que seu arrependimento era voltado, antes de mais nada, a si próprio e à família — e não às vítimas e seus familiares.
O caso levanta um debate sobre os limites do sistema de medidas de segurança no Brasil e sobre o monitoramento de pessoas desinternadas que descumprem condições impostas pela Justiça. Mateus deveria ficar um ano "sob prova". Caso pratique algum ato indicativo de periculosidade — que não precisa ser necessariamente um fato criminoso —, poderia voltar à situação anterior de internação.







