A operação conjunta das polícias Civil e Militar contra facções criminosas no Recôncavo da Bahia chegou ao quarto dia nesta sexta-feira (14), com registro de nove suspeitos mortos e cinco presos nas cidades de Muritiba, São Félix e Cachoeira. O uso de fuzis por integrantes dos grupos armados levou o comandante do Comando de Policiamento da Região do Recôncavo, coronel Lucas Palma, a classificar o cenário como “nível de guerra”, em referência à escalada da violência na região, conforme declarou ao portal g1.
Segundo a Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA), a operação foi deflagrada após sucessivos confrontos entre facções rivais na área da barragem de Pedra do Cavalo, que abrange os três municípios. Imagens aéreas captadas por drones da SSP mostram homens armados circulando por áreas de vegetação em São Félix, portando fuzis calibre 7,62 e outros armamentos pesados, em meio ao cerco policial montado nas zonas de mata fechada entre as cidades.
Quatro dias de confrontos e cerco na mata
Os confrontos tiveram início na terça-feira (11), quando moradores denunciaram a presença de homens armados na região de Pedra do Cavalo. Houve troca de tiros entre facções rivais e, em seguida, intervenção das forças de segurança.
Na madrugada de terça, três homens morreram em confronto com policiais e cinco suspeitos foram presos. Ainda no primeiro dia, a prefeitura de Muritiba emitiu um comunicado pelas redes sociais recomendando que moradores permanecessem em casa até a normalização da situação e suspendeu temporariamente serviços em unidades de saúde, escolas e repartições públicas. Alguns serviços foram retomados no dia seguinte, mas o clima de apreensão se manteve.
Na quarta-feira (12), a operação se concentrou em áreas de mata às margens da BR-101, que interligam Muritiba, São Félix e Cachoeira. Forças policiais montaram um cerco a grupos de suspeitos e houve novos confrontos. Nesse segundo dia, mais cinco homens morreram após serem baleados durante a troca de tiros, totalizando oito mortos até então. Segundo a SSP-BA, eles chegaram a ser socorridos a uma unidade de saúde em Muritiba, mas não resistiram.
A nona morte foi confirmada na quinta-feira (13) pelo Departamento de Polícia Técnica (DPT) de Santo Antônio de Jesus, após a localização de mais um suspeito ferido em área de mata próxima à barragem de Pedra do Cavalo. Com ele, a polícia apreendeu uma pistola, carregador e munições.
Facções locais e ligação com grupos do Rio
Informações da SSP-BA apontam que os mortos e presos são ligados a uma mesma facção que atua no Recôncavo em parceria com um grupo criminoso do Rio de Janeiro. As investigações identificam os alvos como integrantes do Bonde do Maluco (BDM), facção baiana que teria atuação associada ao Comando Vermelho (CV).
O secretário de Segurança Pública, Marcelo Werner, afirmou que chefes de facções que atuam na Bahia estariam escondidos em comunidades do Rio de Janeiro, de onde determinam invasões de territórios rivais e ordenam homicídios..
Uso de fuzis e “nível de guerra”, diz coronel
Um dos pontos que chamaram a atenção das forças de segurança foi o uso de fuzis calibre 7,62 pelos suspeitos na disputa territorial. O coronel Lucas Palma destacou que a realidade do confronto mudou o padrão de atuação policial:
“Eles estão utilizando fuzis 762, isso é uma coisa que leva a ação a um nível de guerra. Antes a polícia trabalhava com revólver 38 e hoje estamos necessariamente trabalhando com fuzil, porque o crime está usando fuzil para nos atacar e atacar a sociedade”, afirmou o comandante.
Além do efetivo local, a operação conta com apoio de unidades especializadas, como Batalhão de Choque, Batalhão de Operações Especiais e Grupamento Aéreo. Ao todo, cerca de 200 agentes participam do cerco aos criminosos na mata, de acordo com a SSP-BA.
Rotina alterada e impacto na educação
A troca de tiros, o cerco policial e a circulação de homens armados alteraram significativamente a rotina das cidades. Em Muritiba, a prefeitura recomendou, por meio de comunicado nas redes sociais, que moradores permanecessem em casa e informou a suspensão temporária de serviços públicos, retomados de forma gradual no dia seguinte. Ainda assim, relatos de moradores indicam que feiras livres e pontos de grande movimentação permaneceram esvaziados, refletindo o clima de tensão.
Na área da educação, a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) decidiu manter aulas remotas em campi situados na região afetada, como forma de reduzir a circulação de estudantes até que a situação esteja considerada segura. A medida atinge cerca de 1.300 alunos.
Apreensões e continuidade da operação
Ao longo dos quatro dias de operação, as polícias Civil e Militar apreenderam fuzis, pistolas, carregadores, grande quantidade de munições calibre 7,62, roupas camufladas, celulares e outros materiais supostamente utilizados pelos suspeitos, conforme balanços divulgados pela SSP-BA. O material apreendido foi encaminhado ao Departamento de Polícia Técnica para perícia.
Equipes também localizaram e desarticularam acampamentos utilizados pelos suspeitos em áreas de mata fechada entre São Félix, Cachoeira e Muritiba, onde, segundo a SSP-BA, atuariam grupos envolvidos com tráfico de drogas e armas, homicídios, lavagem de dinheiro, extorsão e corrupção de menores.
De acordo com a Secretaria de Segurança Pública, o patrulhamento permanece reforçado por tempo indeterminado na região do Recôncavo da Bahia, com bloqueios em vias de acesso às cidades e revistas em veículos, enquanto as forças policiais seguem à procura de outros suspeitos apontados pelas investigações como integrantes das facções em disputa.








