Paulo Afonso · BA
Última hora
Operação prende 14 suspeitos em Salvador nesta manhãSTF retoma julgamento sobre marco temporal nesta tardeVitória empata em casa pela Copa do BrasilVagas de emprego no polo de Camaçari saltam 22%Salvador registra maior volume de chuva do mês
PI 637
Polícia

Empresas de Delivery Acusam Espionagem em Guerra por Mercado no Brasil

iFood, 99Food e Keeta alegam ser alvos de ataques coordenados de espionagem, com ofertas de dinheiro para informações confidenciais de funcionários e investigações policiais em andamento no Brasil.

Redação ChicoSabeTudoRedação · Polícia
26 de janeiro, 2026 · 17:53 4 min de leitura
Em julho de 2020, em São Paulo, milhares de entregadores protestaram contra as condições de trabalho do setor. Imagem: BW Press/Shutterstock
Em julho de 2020, em São Paulo, milhares de entregadores protestaram contra as condições de trabalho do setor. Imagem: BW Press/Shutterstock

A "Guerra do Delivery" no Brasil ganhou um novo e polêmico capítulo: as gigantes do setor, iFood, 99Food e Keeta, estão acusando espionagem e ações coordenadas para roubar informações sigilosas. A disputa, que antes se dava apenas no campo da concorrência de mercado, agora chegou à polícia, com investigações em andamento sobre as graves denúncias.

iFood Denuncia "Ataque Coordenado" por Dados Confidenciais

Publicidade

O iFood, uma das maiores plataformas de entrega do país, revelou detalhes de um "ataque coordenado". Segundo Rafael Corrêa, head de comunicação da empresa, consultorias, muitas delas sediadas na Ásia, estariam buscando informações privilegiadas de forma irregular. As abordagens começaram no primeiro semestre do ano passado, focando em funcionários das áreas comercial e de vendas, principalmente via LinkedIn e e-mail.

Essas solicitações não eram para pesquisas de mercado comuns. As perguntas eram extremamente específicas sobre a operação do iFood, como cálculo de margem de lucro, estratégias de precificação, promoções com restaurantes, número de usuários e até planos de investimento futuros, incluindo o progresso da IA da empresa, o Ailo. Para conseguir essas informações, eram oferecidos valores que variavam de US$ 200 a US$ 500 por hora de entrevista, chegando a US$ 1.000 para executivos de alto escalão – o que daria, na conversão, algo entre R$ 1.000 e R$ 5.500.

"Você está familiarizado(a) com os planos de investimento que o Diego (Diego Barreto, CEO do iFood) mencionou recentemente? A quais novos projetos isso se refere dentro do iFood? Quais grandes mudanças são esperadas na estrutura organizacional e nas operações de negócio do iFood?"

Esse é um dos exemplos de mensagens obtidas pela reportagem, que demonstram o nível de detalhe buscado pelos supostos espiões. Outro convite oferecia US$ 350 por uma ou duas horas de conversa sobre o número de usuários e a lógica de precificação do iFood.

Publicidade

Diante da situação, o iFood tomou medidas internas, orientando os funcionários sobre a proteção de dados e a proibição de participar de tais "consultorias". A empresa também enviou notificações extrajudiciais às consultorias envolvidas.

Investigações Policiais e Quebra de Contratos

As denúncias do iFood não param por aí. Rafael Corrêa confirmou que há investigações policiais em curso devido a dados que foram roubados por ex-funcionários, com processos correndo sob segredo de justiça. Além disso, a empresa tem ações trabalhistas contra colaboradores que, ao sair, quebraram acordos de "non-compete" – contratos que os impedem de trabalhar em concorrentes por um período.

Em junho, o iFood chegou a notificar extrajudicialmente a 99Food, alegando que a concorrente estaria tentando atrair funcionários com cláusulas de "non-compete", prometendo que esses acordos não seriam um problema.

Com 60 milhões de usuários e mais de 400 mil estabelecimentos parceiros, o iFood é um gigante no mercado, detendo, segundo pesquisas, mais de 80% de participação. A empresa prevê investimentos diretos de R$ 17 bilhões entre abril de 2025 e março de 2026.

99Food e Keeta Também se Sentem Vítimas

A 99Food, que pertence à chinesa DiDi Global, também se manifestou, alegando ter encontrado indícios de que informações confidenciais, como planos de lançamento em cidades, contratos com restaurantes e estratégias de expansão, foram comprometidas. A tática seria a mesma: ofertas de US$ 200 a US$ 1.000 para funcionários em "pesquisas de mercado" que, na verdade, buscavam dados sigilosos.

A situação para a 99Food é ainda mais grave, com denúncias de roubo de notebooks corporativos de lideranças e relatos de funcionários que sofreram perseguições em cidades onde a plataforma atua. A empresa também detectou múltiplas tentativas diárias de invasão aos seus sistemas internos.

"Enquanto a 99 revoluciona um mercado há muito dominado por práticas que prejudicam restaurantes, entregadores e consumidores, acreditamos haver indícios que apontam para uma campanha para comprometer nossas operações: assédio para obtenção de dados, furtos de laptops, perseguições e tentativas diárias de acesso não autorizado", afirmou a 99 em nota divulgada em outubro de 2025.

A Keeta, plataforma de delivery da chinesa Meituan, também faz acusações sérias. Em Santos, no litoral de São Paulo, a Polícia Civil investiga ataques coordenados de espionagem contra a companhia e restaurantes parceiros. Após o lançamento da Keeta na cidade, pessoas se passando por funcionários da empresa teriam abordado pelo menos oito estabelecimentos com credenciais falsas.

O objetivo era obter dados sensíveis, incluindo detalhes de pedidos, informações financeiras (métodos de pagamento, remuneração de entregadores, taxas de comissão), processos de integração de restaurantes, cardápios e até preferências dos consumidores. A Keeta, que estreou em outubro do ano passado e planeja investir R$ 5,6 bilhões no Brasil em cinco anos, reforça que atua de acordo com a LGPD e altos padrões éticos.

Rappi Não Comenta, Investigações Continuam

A Rappi, outro player importante do mercado de delivery, preferiu não se manifestar sobre as denúncias de espionagem. A empresa, fundada em 2015 e presente no Brasil desde 2017, é um "Super App" latino-americano e planeja um aporte de R$ 1,4 bilhão no país até 2028.

Enquanto as empresas buscam proteger suas informações e a polícia avança nas investigações, a "Guerra do Delivery" mostra que a concorrência no setor está longe de ser apenas sobre preços e promoções, adentrando um perigoso campo de disputas por informações confidenciais e estratégias de mercado.

Leia também