Cidades bolivianas na fronteira com o Brasil viraram alvo de uma ofensiva do governo local contra o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). As duas facções brasileiras brigam pelo domínio de rotas usadas no envio de cocaína rumo à costa atlântica, e essa disputa tem deixado um rastro de violência incomum para o país vizinho.
Em Guayaramerín, cidade de 40 mil habitantes às margens do rio Mamoré, moradores relatam sensação crescente de insegurança. O aposentado Donald Somoza, de 75 anos, contou à agência de notícias AFP que o controle migratório no pequeno porto amazônico é praticamente inexistente: "nunca ninguém revista" os passageiros que cruzam a fronteira.
Nas últimas semanas, uma dúzia de homicídios atribuídos às facções chocou a Bolívia, um país onde crimes dessa violência eram raros. Entre os casos estão a chacina de uma família e a morte de um policial. Segundo o governo boliviano, os dois grupos criminosos são apontados como responsáveis pela onda de assassinatos cometidos por pistoleiros nas últimas semanas — um cenário incomum no país.
Testemunha de um desses crimes, Somoza relatou à AFP ter presenciado um assassinato que aterrorizou a população: uma vítima estrangeira foi baleada diversas vezes em plena praça central, num episódio ligado à disputa entre as quadrilhas.
Para o pesquisador Joaquín Chacín, especialista em crime organizado, o cenário representa uma mudança de comportamento das quadrilhas, que antes evitavam confronto aberto para não atrair repressão do Estado. Segundo ele, essa "pax mafiosa" que vigorava entre os grupos se rompeu.
Diante da escalada, o presidente boliviano Rodrigo Paz lançou na semana passada, na própria Guayaramerín, o plano "Fronteiras Seguras". A iniciativa prevê reforço policial nas regiões de fronteira e troca de informações de inteligência com a Polícia Federal do Brasil para a captura de criminosos dos dois lados. Segundo o Ministério de Governo boliviano, além de Guayaramerín, outras três regiões fronteiriças foram classificadas como críticas: Cobija/Brasiléia (AC), Guayaramerín/Guajará-Mirim (RO), Puerto Suárez/Corumbá (MS) e San Matías/Cáceres (MT).
Desde que assumiu o governo, em novembro, Paz já capturou 17 chefes de organizações criminosas internacionais, segundo dados oficiais. A gestão, de centro-direita, responsabiliza os governos anteriores, ligados ao ex-presidente Evo Morales e ao também ex-presidente Luis Arce, por terem permitido o avanço do crime organizado no país.
Moradores da região também temem os efeitos colaterais de outra promessa de Paz: a construção de uma ponte ligando Guayaramerín ao Brasil, parte de um corredor viário até o Peru. A vendedora Yestin Durán, de 31 anos, teme que a obra facilite a passagem de quadrilhas. O próprio chefe de polícia local, coronel Johnny Rivas, admitiu à AFP que a violência tende a crescer com a maior circulação na fronteira.
Para Chacín, apenas reforçar o policiamento fronteiriço não resolve o problema. Segundo o pesquisador, é preciso atacar a estrutura financeira das facções, rastreando o caminho percorrido pelo dinheiro ilícito e identificando quem se beneficia dele.







