Uma frase atribuída a Ana Paula Procópio da Silva, diretora da Faculdade de Serviço Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), resume o que está em debate: "O Brasil é negro, mas o envelhecimento é branco." Os números sustentam a provocação: enquanto 55,6% da população brasileira se declara preta ou parda, apenas 48% das pessoas com mais de 64 anos são negras. É exatamente essa contradição que chega à Legião da Boa Vontade (LBV), em Alagoas, nesta quarta-feira, 17 de junho.
A ativista e coordenadora do Instituto Raízes de Áfricas, Arísia Barros, conduz a segunda edição da série Vozes Femininas — ciclo de rodas de conversa voltado à compreensão de identidades, com ênfase na identidade racial. O público desta edição é formado por participantes do Serviço Vida Plena da LBV, programa que atende pessoas acima de 60 anos, segundo informações divulgadas pelo portal Cada Minuto.
Além de Arísia Barros, participam do debate a secretária de estado da Mulher de Alagoas, Marília Albuquerque, e a superintendente Estadual de Políticas para as Mulheres, Izabelle Iza. O encontro tem início às 13 horas, na sede da LBV.
O Instituto Raízes de Áfricas não é novidade no campo do letramento racial em Alagoas. A entidade tem como objetivo, nas palavras da própria Arísia Barros, "subverter à lógica do apagamento, para abarcar saberes e vivências da resistência negra, em uma nova dinâmica de afirmação e letramento cotidiano." Nos últimos anos, o instituto atuou em escolas públicas, seminários e eventos culturais pelo estado.
A escolha de trabalhar com o público idoso tem respaldo em dados concretos. Estudos recentes revelam que a desigualdade racial tem impacto significativo no processo de envelhecimento da população negra, com o racismo estrutural se manifestando em disparidade salarial e restrições no acesso a serviços de saúde, segurança e qualidade de vida. A expectativa de vida da população negra sempre foi menor do que a da população branca — e esse dado, por si só, já denuncia um envelhecimento desigual.
Pesquisa do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), realizada em São Paulo, Salvador e Porto Alegre, revelou que existem desigualdades substanciais na experiência de envelhecimento quando se comparam pessoas negras e brancas com mais de 50 anos. Entre 2012 e 2023, o percentual de pessoas negras em situação de extrema pobreza cresceu de 70,5% para 73,5%, e mais de 60% vivem com até um salário-mínimo.
Para o gestor administrativo da LBV, Arivaldo Oliveira, a abertura para esse tipo de debate é bem-vinda. Segundo informações divulgadas pelo portal Cada Minuto, ele afirmou ser "muito gratificante receber tantas pessoas interessadas em levar conhecimento ao nosso público." A psicóloga da unidade, Fernanda Santos, também destacou que a ação integra um processo de agregar valores às atividades oferecidas.
A série Vozes Femininas conta com o apoio do Instituto Raízes de Áfricas, de Jó Pereira e da Secretaria de Estado da Mulher de Alagoas. O debate proposto vai além do reconhecimento da desigualdade: a proposta é que os participantes idosos possam refletir sobre identidade e, a partir disso, reconhecer e reivindicar seus direitos com mais clareza.







