A Chapada Diamantina, um dos principais destinos de ecoturismo da Bahia, esconde por trás das trilhas e cachoeiras uma realidade que poucas pessoas conhecem: as mulheres que conduzem grupos por essas paisagens enfrentam, diariamente, discriminação de gênero, assédio e boicote organizado dentro do próprio setor.
A guia de ecoturismo Patrícia Ferreira descreve um mercado que impõe barreiras invisíveis às profissionais do ramo. Segundo ela, as agências demonstram preferência clara por guias homens, especialmente em travessias longas, com a justificativa de que exigem maior esforço físico. "Quando adoto uma postura firme e direta, sou rotulada como agressiva ou problemática", afirmou. A profissional também denuncia a desigualdade salarial: teria que provar o dobro da competência para receber a metade da remuneração, conforme relatado ao Bahia Notícias.
A situação não é isolada. A guia Joana Vilarinhos conta que já presenciou turistas ficarem desorientados ao descobrir que uma mulher lideraria a expedição — como se competência técnica dependesse de aparência física ou massa muscular. Ela também relata pressões para que denúncias de assédio não venham a público: "Fui abordada com o argumento de que falar sobre feminismo ou assédio no ecoturismo 'assusta o turista' e prejudica o setor", afirmou.
O contexto encontrado por essas profissionais não é exclusividade da Chapada. Pesquisa publicada na Revista Brasileira de Pesquisa em Turismo, com base em dados do Ministério do Trabalho, mostrou que mesmo quando mulheres compartilham as mesmas características de trabalho e qualificação que colegas homens, são menos valorizadas e recebem salários menores no setor turístico. Dados do Cadastur apontam que mulheres são ligeira maioria entre os guias de turismo registrados no país — 51% — mas seguem sub-representadas nas posições de maior poder e rendimento.
A guia Izabelle Brandão aponta outro problema: a ausência de protocolos coletivos de segurança em territórios remotos. Diante disso, a estratégia mais eficaz que encontraram é o registro em vídeo das situações de abuso ou desrespeito — uma solução individual diante de uma lacuna institucional. Izabelle vai além e relata que a descredibilização vem até de dentro de associações do próprio setor, onde sua autoridade técnica — inclusive em combate a incêndios, área em que atua desde 2012 — é questionada por outros profissionais, inclusive por outras mulheres.
O silêncio de várias outras guias que se recusaram a falar sobre o tema, segundo o relato da reportagem original, revela a dimensão do problema. O medo de retaliação por parte de operadoras e colegas funciona como mecanismo de controle, tornando a denúncia pública um ato de risco para quem depende dessas redes para trabalhar.
Apesar de tudo, as profissionais que escolheram falar público seguem atuando e resistindo. Para elas, o que ameaça o turismo na Chapada Diamantina não são as denúncias — é a ausência de controle sobre condutas inadequadas de profissionais que operam sem respeitar normas básicas de convivência e ética.







