Josy Marinho cresceu no Benedito Bentes 1, bairro da zona norte de Maceió. Estudante de Pedagogia e trabalhadora CLT, ela conhece cada rua do lugar onde nasceu — mas agora não tem certeza de que conseguirá continuar morando lá. O vilão da história tem nome: a escalada do preço dos aluguéis.
"É muito desanimador perceber que você pode ser obrigada a sair do bairro onde cresceu, onde está sua família e seu trabalho, só para achar um lugar onde consiga viver", desabafa a estudante, segundo relato publicado pelo portal IT Notícias. "Não para esbanjar, mas apenas para ter uma margem de sobrevivência. Isso é muito triste."
Josy conta que, há poucos anos, alugar no Benedito Bentes era algo ao alcance de qualquer trabalhador de carteira assinada. Casas que chegavam a R$ 600 ou R$ 700 por mês hoje são anunciadas por R$ 1.500 ou R$ 1.800 — o dobro ou mais — segundo informações divulgadas pela fonte original. O padrão dos imóveis, ela garante, não acompanhou a alta dos preços.
O relato dela encontra respaldo nos números. Em 2025, os aluguéis em Maceió registraram alta de 12,22%, percentual significativamente superior ao avanço médio do Brasil, que foi de 9,44% no mesmo período. Esse índice ficou bem acima da inflação oficial do país (IPCA), que foi de 4,26% no mesmo ano. Em outras palavras, os aluguéis em Maceió subiram quase o triplo da inflação.
A capital alagoana se tornou, inclusive, uma referência nacional nesse fenômeno. O Índice FipeZAP de setembro de 2025 mostrou que Maceió passou a ter o metro quadrado residencial mais caro do Nordeste, com preço médio de R$ 9.732 — superando Salvador (R$ 8.542) e Recife (R$ 7.916). A pressão é ainda maior nos bairros litorâneos, mas especialistas alertam que ela se espalha para regiões populares, onde vivem trabalhadores como Josy.
O boom imobiliário atrai investidores, mas empurra moradores para fora. "O metro quadrado dispara, o custo de vida para o morador aumenta e temos um processo de gentrificação. Moradores tradicionais acabam expulsos dos bairros", alerta o presidente da ABIH/AL, Gabriel Cedrim. A urbanista Rosângela Carvalho, conselheira federal suplente do CAU/BR, é direta: Maceió vive uma "pressão imobiliária exacerbada" sem a devida regulação.
A situação de Josy também reflete uma tendência nacional. A busca por aluguel, que ficava entre 16% e 17% das famílias no início de 2024, passou para cerca de 20% em 2025. O movimento indica que parte dos consumidores continua desejando comprar, mas tem migrado para a locação diante das dificuldades de renda, crédito e endividamento. A elevação da taxa Selic encarece o crédito e reduz a atratividade do financiamento — o que faz com que muitas pessoas adiem o sonho da casa própria e permaneçam pagando aluguel.
Para a trabalhadora CLT que divide o tempo entre a faculdade e o emprego, essa equação não fecha. A busca por uma moradia compatível com o salário virou, nas palavras dela, "uma saga desgastante". A conta que não fecha é a mesma de uma parcela crescente da classe trabalhadora maceioense — e brasileira.







