Um pequeno município da Zona da Mata alagoana pode guardar um dos capítulos mais antigos da resistência negra no Brasil. Pesquisadores da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e representantes da Fundação Cultural Palmares chegaram a Chã Preta na última quinta-feira (14) para dar início às escavações arqueológicas em busca do chamado Mocambo de Osenga — um reduto de africanos escravizados que, segundo documentos históricos, já existia por volta de 1645.
A data tem peso histórico: o Mocambo de Osenga teria existido em terras do município de Chã Preta no século XVII, por volta de 1645, há 380 anos. Se confirmado pelas evidências de campo, o reduto seria anterior à própria Cerca Real do Macaco — a sede política e administrativa do Quilombo dos Palmares, conhecida pelos quilombolas da época como Cerca Real dos Macacos, localizada na Serra da Barriga, em União dos Palmares.
A pesquisa é coordenada pelos professores Onésimo Santos e Levy Pereira, junto de uma equipe multidisciplinar. O grupo inclui arqueólogos, geógrafos, historiadores e antropólogos da Universidade Federal de Alagoas (UFAL-Campus Sertão) e de outras instituições parceiras, com foco em encontrar vestígios dos quilombos mais antigos fundados na região de Palmares, entre Pernambuco e Alagoas.
A faísca que acendeu as escavações cruzou o Atlântico. Um mapa guardado no acervo da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, pode ser a peça-chave para revelar detalhes de uma história negada ao próprio país. O documento é a versão original manuscrita do "Brasilia Qua Parte Paret Belgis", do matemático e naturalista George Marggraf, composto por nove mapas das Capitanias e Câmaras do Brasil Neerlandês, e foi localizado pelo cartógrafo histórico Levy Pereira. O mapa foi achado em 2021, e nesse intervalo foi realizado o trabalho de transposição para a cartografia atual.
A base documental da pesquisa ainda inclui o diário de bordo do capitão holandês Johan Blaer, que visitou o mocambo em meados de 1645, cuja narrativa consta no "Diário do Capitão Blaer", cujo original se encontra no Museu do Louvre, na França. Escritos de pesquisadores brasileiros como Nina Rodrigues, Alfredo Brandão e Edson Carneiro também apontaram essa localidade como um dos mocambos pertencentes a Palmares.
Longe da visão simplista de agrupamentos desorganizados de escravizados fugidos, o Mocambo de Osenga é apresentado pelos estudos como uma sociedade complexa, com organização política, sistema de defesa e práticas culturais próprias. Segundo o escritor e pesquisador Olegário Venceslau, Osenga teria abrigado 211 negros africanos que, além de se estabelecerem em comunidade, atuavam como sentinelas e informantes, numa localização privilegiada entre o litoral e a Serra da Barriga.
O nome "Osenga", segundo o pesquisador, tem origem angolana e significa fortaleza — o que dialoga com a geografia da região. Instalado entre serras e cursos d'água, o mocambo usava a própria natureza como aliada: matas densas e relevo acidentado funcionavam como barreiras contra expedições militares, enquanto pontos elevados permitiam vigilância permanente.
A pesquisa conta com respaldo institucional e recursos garantidos. O Termo de Execução Descentralizado foi assinado pelo presidente da Fundação Cultural Palmares e pelo reitor da UFAL no Dia da Consciência Negra, na Serra da Barriga, com investimento de R$ 300 mil nas pesquisas. Dependendo dos resultados, os pesquisadores seguirão com escavações no chamado Grande Palmares, o quilombo que estaria ativo durante as expedições de 1645 em Alagoas, com a ideia de realizar quatro viagens ao longo de 2026.
A movimentação em Chã Preta não é apenas acadêmica. A Câmara de Vereadores do município aprovou por unanimidade o Projeto de Lei nº 08/2025, que declara os antigos Mocambos de Osenga, Velho Palmares e Andalaquituche como Patrimônio Histórico Material e Imaterial do Município. Entidades locais — como o Instituto Princesa dos Montes, a Associação de Cavalhada de Chã Preta e o Grupo Cultural Flor da Serra — foram fundamentais para que as universidades e a Fundação Palmares voltassem os olhos para o território.
A pesquisa também deve se transformar em material audiovisual com finalidade educativa, com previsão de envolver comunidades e pesquisadores indígenas e negros da região por meio de bolsas de pesquisa. Para além do valor científico, a expectativa é que os achados impulsionem o turismo cultural e coloquem Chã Preta definitivamente no mapa da história e do patrimônio cultural do Brasil.







