No município de Poço das Trincheiras, no Sertão de Alagoas, duas comunidades carregam um peso duplo: preservar a memória dos antepassados no cotidiano e, ao mesmo tempo, enfrentar um longo processo burocrático para que o Estado reconheça oficialmente quem elas sempre souberam que são. Os quilombos Mendes e Vila Carão vivem hoje um momento decisivo dessa caminhada.
As duas comunidades estão em estágios diferentes dentro do mesmo processo. Segundo informações divulgadas pela fonte, a Vila Carão já protocolou seu pedido junto à Fundação Cultural Palmares, enquanto a comunidade Mendes ainda organiza a documentação necessária para dar início formal à solicitação. O líder comunitário Humberto, da Vila Carão, já avista o fim de uma primeira grande etapa: "No momento, estamos nos processos finais para sermos reconhecidos pela Fundação Cultural Palmares", afirmou.
O caminho é longo por definição. A certificação da Fundação Cultural Palmares é o primeiro passo no processo de regularização fundiária. Para obtê-la, a comunidade deve se auto-reconhecer como quilombola e apresentar documentação que comprove sua ancestralidade e ocupação tradicional. Depois, é o Incra que conduz estudos antropológicos e técnicos para delimitar e titular as terras.
Em março de 2026, a Fundação Cultural Palmares instituiu o Cadastro Geral das Comunidades Quilombolas, instrumento que passa a reunir, em registro único nacional, informações sobre os grupos que se autodefinem como remanescentes de quilombos no Brasil. A medida foi formalizada pela Portaria FCP nº 85/2026. A fundação tem o prazo de 180 dias para análise e conclusão do processo de expedição da certidão, podendo ser prorrogado por igual período uma única vez.
Para as comunidades alagoanas, a burocracia é o obstáculo mais concreto. Segundo informações divulgadas pela fonte, a documentação exigida inclui ata de autodefinição, estatuto, CNPJ da associação, relação de famílias e requerimentos formais — um conjunto de exigências que demanda organização, recursos financeiros e orientação técnica. "As principais dificuldades incluem a burocracia, a escassez de informações técnicas e os custos com documentação e deslocamentos", explica Augusto Júnior, coordenador municipal de Promoção da Igualdade Racial de Poço das Trincheiras.
No cotidiano, os desafios são ainda mais imediatos. Na comunidade Mendes, a falta de água é uma das queixas mais urgentes dos moradores. Na Vila Carão, garantir a sobrevivência das famílias segue como preocupação permanente, segundo o líder Humberto. Mesmo assim, a resistência não cede. "Confiança, força, fé, união e sabedoria para debater, conversar e conhecer nossos direitos e nossos saberes", resume Luciano Honorato, liderança da comunidade Mendes.
A identidade quilombola, para essas comunidades, não é apenas um rótulo jurídico — é algo vivido a cada geração. Na Mendes, moradores participam do Tríduo de Santa Luzia em dezembro, a imagem da Mãe Rainha percorre residências mensalmente e o Dia da Aliança, celebrado no dia 18 de cada mês, reúne famílias em oração. A culinária preserva memória: milho cozido, canjica, umbuzada e cocada feita com coco licuri marcam as celebrações. Há ainda o artesanato — tapetes de sacolas recicladas, aiós de croá e fogões de argila — e o Mendes Futebol Clube, que disputa partidas com equipes vizinhas. Na Vila Carão, uma rezadeira recebe moradores de comunidades próximas, mantendo vivos saberes transmitidos oralmente por gerações.
O apoio institucional local tem feito diferença. A Prefeitura de Poço das Trincheiras oficializou a nomeação dos membros do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial para o biênio 2026/2028. A composição do conselho reúne representantes de secretarias municipais, sindicatos e comunidades remanescentes de quilombos do município. Segundo informações divulgadas pela fonte, o município foi o primeiro de Alagoas a aderir ao Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Sinapir) e o primeiro do estado a criar um Plano Municipal de Igualdade Racial.
Entre os ganhos do reconhecimento estão a preservação da cultura nos territórios quilombolas e, no campo material, maior possibilidade de acesso a direitos como moradia digna, escolas, postos de saúde e transporte, conforme aponta a Fundação Cultural Palmares. De acordo com o Censo 2022, o Brasil tem 1,3 milhão de pessoas quilombolas, distribuídas em 7.666 comunidades e 8.441 localidades. Para Mendes e Vila Carão, o reconhecimento oficial ainda não chegou — mas a história que eles preservam já existe há muito mais tempo do que qualquer certidão poderia registrar.







