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Entre a tradição e a burocracia: quilombos do Sertão alagoano travam batalha pelo reconhecimento oficial

Comunidades Mendes e Vila Carão, em Poço das Trincheiras (AL), enfrentam exigências documentais e escassez de recursos enquanto mantêm vivas cultura, fé e identidade ancestral

Redação ChicoSabeTudo
24 de junho, 2026 · 09:56 3 min de leitura
Comunidade quilombola no Sertão de Alagoas aguarda reconhecimento oficial
Comunidade quilombola no Sertão de Alagoas aguarda reconhecimento oficial

No município de Poço das Trincheiras, no Sertão de Alagoas, duas comunidades carregam um peso duplo: preservar a memória dos antepassados no cotidiano e, ao mesmo tempo, enfrentar um longo processo burocrático para que o Estado reconheça oficialmente quem elas sempre souberam que são. Os quilombos Mendes e Vila Carão vivem hoje um momento decisivo dessa caminhada.

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As duas comunidades estão em estágios diferentes dentro do mesmo processo. Segundo informações divulgadas pela fonte, a Vila Carão já protocolou seu pedido junto à Fundação Cultural Palmares, enquanto a comunidade Mendes ainda organiza a documentação necessária para dar início formal à solicitação. O líder comunitário Humberto, da Vila Carão, já avista o fim de uma primeira grande etapa: "No momento, estamos nos processos finais para sermos reconhecidos pela Fundação Cultural Palmares", afirmou.

O caminho é longo por definição. A certificação da Fundação Cultural Palmares é o primeiro passo no processo de regularização fundiária. Para obtê-la, a comunidade deve se auto-reconhecer como quilombola e apresentar documentação que comprove sua ancestralidade e ocupação tradicional. Depois, é o Incra que conduz estudos antropológicos e técnicos para delimitar e titular as terras.

Em março de 2026, a Fundação Cultural Palmares instituiu o Cadastro Geral das Comunidades Quilombolas, instrumento que passa a reunir, em registro único nacional, informações sobre os grupos que se autodefinem como remanescentes de quilombos no Brasil. A medida foi formalizada pela Portaria FCP nº 85/2026. A fundação tem o prazo de 180 dias para análise e conclusão do processo de expedição da certidão, podendo ser prorrogado por igual período uma única vez.

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Para as comunidades alagoanas, a burocracia é o obstáculo mais concreto. Segundo informações divulgadas pela fonte, a documentação exigida inclui ata de autodefinição, estatuto, CNPJ da associação, relação de famílias e requerimentos formais — um conjunto de exigências que demanda organização, recursos financeiros e orientação técnica. "As principais dificuldades incluem a burocracia, a escassez de informações técnicas e os custos com documentação e deslocamentos", explica Augusto Júnior, coordenador municipal de Promoção da Igualdade Racial de Poço das Trincheiras.

No cotidiano, os desafios são ainda mais imediatos. Na comunidade Mendes, a falta de água é uma das queixas mais urgentes dos moradores. Na Vila Carão, garantir a sobrevivência das famílias segue como preocupação permanente, segundo o líder Humberto. Mesmo assim, a resistência não cede. "Confiança, força, fé, união e sabedoria para debater, conversar e conhecer nossos direitos e nossos saberes", resume Luciano Honorato, liderança da comunidade Mendes.

A identidade quilombola, para essas comunidades, não é apenas um rótulo jurídico — é algo vivido a cada geração. Na Mendes, moradores participam do Tríduo de Santa Luzia em dezembro, a imagem da Mãe Rainha percorre residências mensalmente e o Dia da Aliança, celebrado no dia 18 de cada mês, reúne famílias em oração. A culinária preserva memória: milho cozido, canjica, umbuzada e cocada feita com coco licuri marcam as celebrações. Há ainda o artesanato — tapetes de sacolas recicladas, aiós de croá e fogões de argila — e o Mendes Futebol Clube, que disputa partidas com equipes vizinhas. Na Vila Carão, uma rezadeira recebe moradores de comunidades próximas, mantendo vivos saberes transmitidos oralmente por gerações.

O apoio institucional local tem feito diferença. A Prefeitura de Poço das Trincheiras oficializou a nomeação dos membros do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial para o biênio 2026/2028. A composição do conselho reúne representantes de secretarias municipais, sindicatos e comunidades remanescentes de quilombos do município. Segundo informações divulgadas pela fonte, o município foi o primeiro de Alagoas a aderir ao Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Sinapir) e o primeiro do estado a criar um Plano Municipal de Igualdade Racial.

Entre os ganhos do reconhecimento estão a preservação da cultura nos territórios quilombolas e, no campo material, maior possibilidade de acesso a direitos como moradia digna, escolas, postos de saúde e transporte, conforme aponta a Fundação Cultural Palmares. De acordo com o Censo 2022, o Brasil tem 1,3 milhão de pessoas quilombolas, distribuídas em 7.666 comunidades e 8.441 localidades. Para Mendes e Vila Carão, o reconhecimento oficial ainda não chegou — mas a história que eles preservam já existe há muito mais tempo do que qualquer certidão poderia registrar.

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