Sacos plásticos espalhados pelas calçadas, mau cheiro e reclamações que se multiplicam nas redes sociais: Maceió enfrenta uma crise crescente na coleta de lixo que já extrapola as grotas e bairros periféricos e começa a atingir regiões centrais da capital alagoana, como o bairro do Farol. Moradores relatam que o caminhão de coleta, que antes passava três vezes por semana, agora aparece apenas uma vez.
Por trás do cenário de ruas tomadas por resíduos, há um passivo financeiro de peso. De acordo com a empresa Via Ambiental, em entrevistas concedidas à imprensa, a dívida da Prefeitura de Maceió já chega a R$ 45 milhões. O atraso nos pagamentos teria provocado a redução das frotas e afetado a regularidade da coleta em diversos bairros.
A situação já tem consequências diretas para a saúde pública. Segundo o médico infectologista Renée Oliveira, ambientes com lixo acumulado favorecem a proliferação de ratos, baratas, moscas e mosquitos transmissores de doenças. Entre os riscos estão a leptospirose, além de arboviroses como dengue, chikungunya e zika.
O problema chegou a ponto de moradores arcarem com o custo do serviço público do próprio bolso. Com o lixo acumulado durante vários dias, moradores de um condomínio decidiram contratar uma empresa particular para realizar a coleta dos resíduos que deveriam ter sido recolhidos pelo serviço público. O residencial possui mais de 300 unidades habitacionais e produziu cerca de cinco toneladas de lixo durante o período sem recolhimento adequado.
A pressão institucional também cresceu. Após receber uma série de denúncias de moradores sobre falhas na coleta em diferentes regiões de Maceió, o Núcleo de Proteção Coletiva da Defensoria Pública do Estado decidiu atuar, enviando ofícios à Alurb e às empresas Via Ambiental e Naturalle Tratamento de Resíduos. A Defensoria solicitou que fossem apresentadas, em até cinco dias, informações sobre as medidas adotadas para normalizar o serviço e uma solução definitiva para os bairros afetados.
O Ministério Público e o TCE-AL estão avaliando se os recursos destinados ao São João Massayó comprometem a saúde financeira do município e a capacidade de pagamento a fornecedores essenciais. Entre os elementos que compõem essa dívida estão reajustes contratuais, revisões de preços, compensações financeiras por variação de custos e medições de serviços efetivamente executados.
No Legislativo Municipal, o vereador e ex-prefeito Rui Palmeira (PSD) entrou no debate pelas redes sociais. Segundo Rui, a crise não aconteceu por acaso, e ele destacou que a gestão do ex-prefeito JHC deixou uma dívida milionária com as empresas responsáveis pela limpeza urbana, o que teria impactado diretamente o funcionamento da coleta. Outra vereadora, Teca Nelma, afirmou ter recebido informações de que as empresas Viambiental e Naturalle estariam atuando por meio de contratos emergenciais, sem processo licitatório.
A resposta oficial veio pela Alurb, autarquia municipal de limpeza urbana. A autarquia informou que a coleta domiciliar segue funcionando com 100% do efetivo em atividade e que salários e benefícios dos trabalhadores estão sendo pagos regularmente. A Alurb admitiu, entretanto, que algumas localidades registraram atrasos pontuais, atribuídos a ajustes operacionais e readequações logísticas das empresas prestadoras. Os questionamentos sobre os contratos emergenciais, porém, não foram comentados pela prefeitura.
Apesar da situação crítica e da falta de pagamentos, a empresa reafirmou seu compromisso em manter as operações, buscando soluções junto à gestão municipal para evitar um colapso nos serviços e minimizar o impacto na população. Enquanto isso, nas ruas de Maceió, moradores seguem convivendo com o acúmulo de resíduos e aguardam uma resposta concreta da administração municipal.







