Caminhoneiros de diversas regiões do país articulam uma greve nacional a partir desta quinta-feira, 4 de dezembro, com chamadas que circulam principalmente em redes sociais e grupos de mensagens. A mobilização é apresentada por lideranças como uma resposta a demandas históricas da categoria, mas enfrenta resistência de entidades representativas e de motoristas que veem risco de uso político do movimento.
A convocação ganhou visibilidade após vídeos em que o desembargador aposentado Sebastião Coelho aparece ao lado de Chicão Caminhoneiro, ligado à União Brasileira dos Caminhoneiros. Em Brasília, ele protocolou na Presidência da República uma pauta de reivindicações e comunicou a intenção de iniciar uma paralisação em todo o país a partir de 4 de dezembro, alegando que o movimento busca respaldo jurídico e está amparado no direito de greve previsto na Constituição brasileira.
Reivindicações econômicas e trabalhistas da categoria
Os documentos e declarações públicos das lideranças listam uma série de pontos que vêm sendo discutidos há anos entre caminhoneiros autônomos e contratados. Entre as principais reivindicações estão:
Estabilidade contratual, com critérios objetivos tanto para a contratação quanto para a recusa de fretes;
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Reestruturação do marco regulatório do transporte de cargas, com revisão de regras consideradas defasadas pelo setor;
Regularização administrativa de motoristas autônomos que participaram de mobilizações anteriores;
Atualização do piso mínimo do frete, com atenção especial a veículos de nove eixos;
Congelamento de dívidas da categoria por 12 meses, seguido de possibilidade de refinanciamento em até 120 meses;
Aposentadoria especial após 25 anos de atividade fiscalmente comprovada;
Linha de crédito de até R$ 200 mil, inclusive para caminhoneiros negativados;
Isenção de IPI para renovação de frota;
Ampliação de pontos de parada e descanso conforme a Lei 13.103/2015;
Suspensão temporária da chamada “Lei do Descanso”, até que haja infraestrutura adequada nas rodovias;
Criação de uma “Justiça do Transporte”, judiciário especializado em conflitos do setor;
Reserva de 30% das cargas de estatais para caminhoneiros autônomos, sob o argumento de ampliar a competitividade.
Lideranças que apoiam a paralisação afirmam que a pauta se concentra em condições de trabalho, segurança, previsibilidade de renda e cumprimento das leis já existentes no transporte de cargas. Em entrevistas e vídeos, representantes destacam baixa remuneração, dificuldade de cumprir normas por falta de estrutura nas estradas e violência nas rodovias como fatores que sustentam a convocação.
Anistia a Bolsonaro e envolvidos no 8 de janeiro entra na pauta
Paralelamente às reivindicações econômicas, parte das mensagens que circulam nas redes vincula a paralisação a uma agenda política. Em vídeos publicados em seu perfil, o desembargador aposentado Sebastião Coelho convoca apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro para uma paralisação em defesa de uma “anistia ampla, geral e irrestrita” para Bolsonaro e para os investigados pelos atos de 8 de janeiro.
Segundo ele, o destinatário do movimento seria o Congresso Nacional, apontado como responsável por analisar propostas de anistia. Coelho também defende que apenas bombeiros, hospitais e ambulâncias continuem funcionando, enquanto os demais setores poderiam aderir à paralisação gradualmente, por segmentos, até formar um movimento de alcance nacional.
Esse discurso reforçou a percepção, entre parte da categoria e de analistas, de que a mobilização combina pautas corporativas com objetivos políticos ligados à situação judicial do ex-presidente.
Entidades e lideranças que não apoiam a paralisação
Apesar da insatisfação generalizada com as condições de trabalho, a greve não é consenso entre caminhoneiros. Entidades de representação nacional e regional afirmam não ter sido formalmente consultadas e contestam a forma como a convocação foi construída.
A Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA), que reúne nove federações e mais de 100 sindicatos, declarou a veículos especializados que “não tem conhecimento” do movimento e que não recebeu sinalização oficial de mobilização por parte de suas bases.
A Federação dos Caminhoneiros Autônomos de Carga em Geral de São Paulo (Fetrabens) publicou nota informando que não convoca nem participa de atos relacionados à situação jurídica de Jair Bolsonaro, classificando como “manifestações individuais” os vídeos de convocação que circulam em redes sociais.
Na Baixada Santista, a Cooperativa dos Caminhoneiros Autônomos do Porto de Santos (CCAPS) também se distanciou da greve. Seu presidente, Marcelo Paz, criticou a ausência de assembleias e de votação entre os cooperados antes da convocação, afirmando que uma paralisação ampla exigiria deliberação formal.
Lideranças que ganharam projeção na greve de 2018 igualmente manifestaram reservas. Wallace Landim, conhecido como Chorão, declarou em vídeo que não participará do ato, alegando que o movimento estaria sendo conduzido para “defender político A ou B” e que não aceitaria utilizar a categoria para esse tipo de mobilização.
Possíveis impactos e lembrança da greve de 2018
A chamada para 4 de dezembro reacende o debate sobre o potencial impacto de uma paralisação nacional de caminhoneiros. O transporte rodoviário segue como principal via de circulação de cargas no Brasil, responsável pelo abastecimento de combustíveis, alimentos, insumos industriais e mercadorias em geral.
Em 2018, uma greve de caminhoneiros paralisou o país por cerca de dez dias, provocando desabastecimento de combustíveis, falta de produtos em supermercados, queda na produção industrial, cancelamento de voos e prejuízos ao agronegócio. Para encerrar o movimento, o governo do então presidente Michel Temer negociou subsídios ao diesel, revisão da política de preços da Petrobras e criação da tabela mínima de frete.
Especialistas ouvidos por veículos de imprensa lembram que o alcance de uma paralisação em 2025 dependerá de fatores como o grau de adesão de motoristas autônomos e empregados, a resposta de empresas transportadoras, eventuais decisões judiciais sobre bloqueios em rodovias e a forma como o governo federal e os estados reagirem a interrupções de tráfego.







