Uma pergunta cada vez mais urgente move construtoras e corretores em toda a Bahia: onde deve morar quem tem mais de 60 anos, quer independência, mas precisa de segurança? A resposta começa a tomar forma no sudoeste baiano, com o primeiro empreendimento residencial do estado pensado exclusivamente para esse público.
O Residencial Horto Sênior, da Engenhar Construtora, está em construção em Vitória da Conquista. O empreendimento promete transformar a experiência de viver a maturidade na cidade. São cerca de 60 casas de dois e três quartos projetadas com banheiros adaptados, portas largas e espaços amplos. Cada unidade conta com sensores de gás, fumaça e um botão de pânico que, acionado em caso de queda, dispara alarme simultaneamente na portaria e na enfermaria do condomínio, que funcionará 24 horas, segundo informações divulgadas pelo portal A Tarde.
As áreas comuns incluem piscina coberta aquecida, espaço para pilates e terapias ocupacionais, academia ao ar livre, minimercado, horta, orquidário e salão de convivência. O condomínio também firmará parceria com o Hospital SAMUR e a VittaSaúde para atendimento médico domiciliar e gestão de medicações. A entrega está prevista para junho de 2027, e cerca de 80% das unidades já foram vendidas, de acordo com a construtora — parte delas adquiridas por investidores interessados na locação.
O sócio da Engenhar, Maurício Muiños, conta que a ideia nasceu de uma experiência pessoal: ao enfrentar a situação da própria mãe — independente, mas sem condições de morar sozinha — percebeu que o mercado não oferecia o que ela precisava. Na avaliação dele, condomínios tradicionais não servem bem para esse público: playgrounds representam risco de acidente, a acessibilidade costuma ser parcial e parte dos equipamentos oferecidos simplesmente não são utilizados por moradores mais velhos, conforme declarou ao A Tarde.
Quem já atuava nesse nicho antes do empreendimento sair do papel é a economista e corretora Sheila Rangel, que desde 2018 trabalha voluntariamente com inclusão e acessibilidade. Ao perceber que a maior parte do público que interagia com ela nas redes sociais era formada por idosos, ela ampliou o foco e passou a mapear a oferta de moradia sênior no estado. Além do Horto Sênior, ela já identificou um segundo empreendimento aguardando licenças ambientais para ser lançado em Itacimirim, no litoral norte da Bahia, com previsão para novembro, segundo o A Tarde. Sheila também negocia projetos similares em Salvador.
Para a corretora, as construtoras ainda não enxergaram o potencial do segmento. Segundo ela, o setor continua voltado para apartamentos compactos voltados ao público jovem ou imóveis grandes de três quartos ou mais, sem atentar para quem quer menos cômodos, porém amplos e adaptados. Uma pesquisa informal que ela conduziu no Instagram apontou que esse público prioriza acessibilidade, espaços com plantas, centro ecumênico, piscina aquecida para hidroginástica e salão de dança — e busca, sobretudo, um senso de pertencimento comunitário.
O movimento baiano acompanha uma tendência nacional. Em um país que envelhece rapidamente, investidores, incorporadores e operadores já olham para uma nova geração de pessoas com mais de 60 anos: mais independente, conectada e menos disposta a associar envelhecimento apenas à ideia de cuidado assistencial. Em 2022, o Censo registrou 32 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais — o equivalente a 15,8% da população. Em 1980, eram 6,1%. Pelas projeções do IBGE, essa fatia deve se aproximar de 38% em 2070.
Enquanto a Europa levou cerca de 80 anos para consolidar sua transição demográfica, países sul-americanos devem percorrer esse caminho em poucas décadas. Entre 2020 e 2030, a população idosa europeia cresce cerca de 23%, enquanto na América do Sul esse avanço chega a 71%. No Brasil, segundo o IBGE, a expectativa de vida dos brasileiros saltou de 57 anos em 1970 para 77 anos atualmente. Esse descompasso entre demanda e oferta cria uma janela de oportunidade para o mercado imobiliário.
Se mudar para um condomínio voltado à terceira idade ainda é incomum — mesmo entre quem tem condições financeiras para bancar —, há dúvidas sobre a disposição dos próprios idosos de viver em espaços exclusivos para essa faixa etária, sem integração com outras idades. O desafio cultural existe, mas os números do Horto Sênior sugerem que o mercado baiano começa a superar essa barreira mais rápido do que se esperava.







