O Hospital da Bahia, pertencente à Rede Américas, está no centro de uma polêmica trabalhista e sanitária: o hospital planeja demitir 33 técnicos e tecnólogos em radiologia e uma biomédica, com os desligamentos programados para agosto de 2026. Por trás da decisão, segundo denúncias do sindicato da categoria, estaria uma estratégia de substituir empregos com carteira assinada por contratos de Pessoa Jurídica — a chamada pejotização — e de operar equipamentos de alta complexidade à distância.
A denúncia partiu do Sindicato dos Técnicos e Auxiliares em Radiologia do Estado da Bahia (SINDIMAGEM-BA) e da Comissão Unificada de Profissionais de Imagem. Na avaliação das entidades, "o objetivo do hospital é substituir profissionais especializados com anos de casa por um modelo de contratação via 'pejotização' e terceirização irresponsável".
O imbróglio também chegou à Justiça do Trabalho. Segundo informações divulgadas pelo Portal A Tarde, o hospital não compareceu a uma primeira audiência marcada na Procuradoria Regional do Trabalho, em Salvador, na última quinta-feira, dia 30 de julho. A mesma fonte aponta que a ata de uma reunião realizada em 24 de julho entre a gestão e o sindicato teria sido alterada pela empresa para sugerir que havia concordância dos trabalhadores com os cortes — o que o SINDIMAGEM-BA nega categoricamente.
A comunicação formal sobre os desligamentos foi enviada por e-mail no dia 16 de julho, com documento datado de 7 de julho de 2026. O sindicato respondeu em 17 de julho, marcando a reunião que ocorreu dias depois. Na ocasião, conforme relatado pelas entidades, a gestão do hospital não detalhou os motivos das demissões, tratando o assunto como simples "reestruturação corporativa" e sem abrir espaço para negociação coletiva.
Entre os 33 profissionais que serão demitidos, três trabalham há mais de dez anos na instituição. Os demais têm cerca de três anos de empresa — período que coincide com a compra do hospital pela Rede Américas. De acordo com informações da reportagem do A Tarde, vagas abertas em plataformas de recrutamento indicam valores de R$ 25 a R$ 30 por turno diurno e de R$ 30 a R$ 35 por turno noturno para os novos profissionais no regime PJ, sem o pagamento de adicionais noturno, de insalubridade ou de periculosidade.
Além da troca de regime trabalhista, o sindicato denuncia que o hospital planeja operar equipamentos de alta complexidade, como Tomografia Computadorizada e Ressonância Magnética, por meio de controle remoto computadorizado — telemedicina — comandado por operadores localizados em outros estados. Os trabalhadores chamaram esse modelo de "imagem robô". Representantes da categoria afirmam que os exames poderiam ser realizados por operadores à distância, o que gerou preocupação quanto aos impactos para os profissionais e para a assistência prestada aos pacientes.
A prática, se confirmada nos moldes denunciados, pode colidir com a legislação sanitária federal. A RDC 611/2022 é a resolução da Anvisa que define os requisitos sanitários para o funcionamento de serviços de radiologia diagnóstica e intervencionista, incluindo gestão, qualidade, proteção radiológica, tecnologia e telerradiologia. A norma estabelece que os critérios primários para a opção por procedimento telerradiológico devem ser o benefício e a segurança do paciente, e que esses critérios não devem ser subordinados somente a razões econômicas ou conveniência para o serviço.
Profissionais ouvidos pela reportagem original relatam que o modelo prevê uma central de comandos (Command Center) em que um único operador controlaria, à distância e simultaneamente, duas ou três máquinas, sem contato físico com o paciente. O plano seria iniciar com mão de obra soteropolitana e, em até um ano, transferir as operações para centros no eixo Rio-São Paulo. Em nota, o Hospital da Bahia justificou as demissões como parte de uma reestruturação financeira e negou que haja mudanças para operação remota de exames.







