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Emprego

BYD pode eliminar até 69 mil empregos no Brasil, alerta Anfavea

A Anfavea alerta que estender benefícios fiscais para importação de carros elétricos desmontados, usados pela BYD, pode cortar 69 mil empregos diretos no Brasil e gerar perdas bilionárias ao setor automotivo. O prazo da decisão do governo se encerra em janeiro.

Redação ChicoSabeTudoRedação · Emprego
20 de janeiro, 2026 · 16:20 3 min de leitura
(Imagem: Shutterstock/bandeira do Brasil por AB Visual Arts e carro elétrico por Smile Fight)
(Imagem: Shutterstock/bandeira do Brasil por AB Visual Arts e carro elétrico por Smile Fight)

A indústria automotiva brasileira está em alerta máximo. Um estudo divulgado pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) acende um sinal vermelho: a possível extensão de benefícios fiscais para a importação de carros elétricos desmontados, usados por empresas como a BYD, pode custar até 69 mil empregos diretos no país. Essa é a preocupação que domina o setor enquanto o prazo para a decisão do governo se aproxima.

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Imagine perder quase 75% da força de trabalho atual da indústria automotiva. É exatamente isso que a Anfavea prevê caso o modelo de montar kits importados, conhecido como SKD (semi knocked down) e CKD (completely knocked down), continue recebendo incentivos. Além dos empregos diretos, outros 227 mil postos de trabalho indiretos, que sustentam toda a cadeia de autopeças, logística e engenharia, também seriam duramente atingidos.

Prejuízos bilionários e um prazo apertado

Não são apenas os empregos que estão em jogo. A Anfavea calcula que o setor de autopeças pode perder incríveis R$ 103 bilhões. Para os cofres públicos, a diminuição da grana dos impostos chegaria a R$ 26 bilhões em apenas um ano. E as exportações de veículos? Elas também levariam um tombo, com uma queda estimada em R$ 42 bilhões, o que apertaria a balança comercial do Brasil.

Tudo isso ganha urgência porque um regime especial de importação, que zerou o imposto para veículos elétricos e híbridos desmontados por seis meses, tem data para acabar: 31 de janeiro. Esse benefício, aprovado em julho de 2025, foi uma saída temporária para uma briga entre as montadoras já estabelecidas no Brasil, como Volkswagen, General Motors, Stellantis e Toyota, e a chinesa BYD.

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A BYD, que inaugurou sua fábrica em Camaçari, na Bahia, no ano passado, tem usado majoritariamente o modelo SKD, importando os kits pré-montados. A empresa argumenta que precisa desse tempo para conseguir nacionalizar sua produção aqui.

A briga nos bastidores: BYD x montadoras tradicionais

A tensão começou para valer no primeiro semestre de 2025. A BYD pediu ao governo que o imposto de importação para os kits desmontados ficasse zerado até junho de 2028. Isso fez as montadoras tradicionais pularem da cadeira, enviando uma carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e alertando sobre uma possível concorrência desleal.

A BYD não deixou barato, classificando a reação como coisa de “concorrentes obsoletos” e dizendo que estava apenas democratizando o acesso ao carro elétrico no Brasil. Diante da confusão, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) decidiu por um meio-termo: concedeu a isenção por apenas seis meses, antecipando o fim definitivo do benefício para julho de 2026. Mesmo assim, a possibilidade de renovação deixou o setor com a pulga atrás da orelha.

“Uma eventual prorrogação representaria um risco estrutural para a indústria nacional”, disse Igor Calvet, presidente da Anfavea. “As empresas até conseguiriam se adaptar a um modelo simplificado de produção, mas o problema seria sistêmico: perderiam os fornecedores, os trabalhadores, a engenharia nacional, a academia e o poder público. No fim das contas, quem perde é a sociedade brasileira.”

Incentivo temporário ou desindustrialização?

Para a Anfavea, não há problema em usar os modelos CKD e SKD de forma pontual, como um começo. Muitas montadoras fizeram isso ao chegar ao Brasil, mas depois avançaram para uma produção completa, gerando empregos, pagando impostos e fortalecendo a cadeia de fornecedores local. O que preocupa é transformar essa montagem simplificada na regra, e não na exceção.

“O risco está em transformar a montagem simplificada em regra, e não em exceção”, reforça Calvet. Ele alerta que isso pode diminuir os investimentos em pesquisa e desenvolvimento, enfraquecer a competitividade da indústria brasileira e jogar contra a estratégia de reindustrialização do país, justamente em um momento de grandes mudanças tecnológicas.

Afinal, a indústria automotiva brasileira já anunciou mais de R$ 190 bilhões em investimentos para pesquisa, desenvolvimento e inovação. É um valor recorde, impulsionado por programas como o Inovar-Auto, Rota 2030 e, mais recentemente, o Mover. Por isso, as montadoras estão apreensivas com políticas que, na prática, podem levar à desindustrialização. A decisão final do governo sobre a prorrogação do incentivo deve sair nos próximos dias e promete gerar ainda mais debates no setor.

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