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Cultura

O paradoxo que sufoca o talento da terra: por que o artista local vale menos do que o de fora?

Jornalista e produtor cultural Keyler Simões analisa a discriminação de cachê e de espaço que artistas locais enfrentam no Brasil há décadas, enquanto atrações externas dominam eventos e recursos públicos.

Redação ChicoSabeTudo
23 de junho, 2026 · 19:21 3 min de leitura
Portal ChicoSabeTudo
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Quem vem de fora parece valer mais. Essa percepção, sentida por músicos, atores, artesãos e grupos folclóricos Brasil afora, é o centro de uma reflexão do jornalista e produtor cultural Keyler Simões, publicada pelo portal TNH1. O tema não é novo, mas continua urgente: o artista local é sistematicamente preterido quando o assunto é cachê, espaço em palco e atenção da imprensa.

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Segundo Simões, existe um paradoxo que acompanha a cultura de muitas cidades brasileiras há décadas. O artista que nasce, vive e produz na comunidade costuma receber menos do que aquele que atravessa fronteiras para se apresentar. A lógica é quase automática: ser de fora já parece suficiente para agregar valor a um espetáculo ou a uma trajetória.

O que poucos percebem é que esse artista "de fora" também é um artista local em sua cidade de origem. Se ele chegou a um patamar de reconhecimento, foi porque encontrou oportunidades — apoio institucional, acesso à imprensa, políticas de incentivo e um público que acreditou nele antes de qualquer projeção nacional. Em outras palavras, alguém o valorizou quando ele ainda era apenas mais um nome desconhecido.

Enquanto isso, grupos folclóricos, músicos independentes, escritores regionais e produtores culturais de cidades menores continuam disputando migalhas de atenção. São lembrados, quando muito, em datas comemorativas. As grandes atrações absorvem a maior fatia dos investimentos. Em debate na Assembleia Legislativa do Piauí sobre contratação de artistas locais, chegou-se a mencionar que, em cachês de R$ 850 mil, o artista regional recebia apenas R$ 8,5 mil. O contraste ilustra bem o tamanho da desigualdade.

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O problema, destaca Simões, não é contratar artistas de outras regiões. Músicos externos costumam atrair mais atenção do público, dos investidores e dos patrocinadores. A circulação cultural é saudável e necessária para o intercâmbio de experiências. O erro está em deixar que essa valorização externa ocorra em detrimento dos talentos locais, criando a falsa impressão de que o que vem de fora é sempre superior.

O eurocentrismo, que coloca a cultura estrangeira como superior, ainda dita muito do comportamento brasileiro — levando o público a valorizar o que vem de fora e, às vezes, a não consumir a própria cultura. Esse fenômeno histórico se replica em escala menor dentro do próprio país: o artista de São Paulo vale mais do que o do interior do Nordeste; o de Salvador vale mais do que o de um município do Sertão do São Francisco.

Na Bahia, iniciativas recentes tentam mudar esse quadro. O governo estadual pretende ampliar o alcance do FazCultura e fortalecer iniciativas que impulsionem a economia da cultura, com mecanismo que favorece projetos em diferentes regiões, incluindo cidades do interior. O programa destina R$ 15 milhões para fomentar a produção cultural e a preservação do patrimônio histórico. Ainda assim, a capilaridade desses recursos até os menores municípios continua sendo um desafio.

No interior baiano, movimentos surgem a partir da base. Em Paramirim, por exemplo, a proposta de criação de uma associação cultural nasceu com o objetivo de lutar por cachês mais justos, incentivo cultural e reconhecimento dos artistas que mantêm viva a tradição nordestina nos festejos populares. A demanda é a mesma em dezenas de outras cidades: um calendário cultural permanente, acesso a editais e participação garantida em eventos financiados com dinheiro público.

A reflexão de Simões termina com uma conclusão direta: valorizar os artistas locais não significa fechar portas para quem vem de fora. Significa construir um ambiente de equilíbrio, onde os talentos da terra tenham as mesmas oportunidades de crescimento e visibilidade. Os grandes nomes de amanhã são os artistas locais de hoje. Uma cultura forte não é aquela que apenas importa atrações — é aquela que também cultiva e protege o que nasce dentro de casa.

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