Em um vilarejo encravado entre a Mata Atlântica e as águas de Alagoas, mulheres transformam o que têm ao redor — conchas, linhas, cascas que seriam descartadas — em peças artesanais que sustentam famílias e guardam histórias. É o que documenta a reportagem especial "Mãos de Maré", produzida pelo portal TNH1, com texto de Ana Carla Vieira e fotografias de Itawi Albuquerque.
O projeto retrata bordados feitos em superfícies inusitadas e resíduos naturais que ganham vida nova como joias sustentáveis. O trabalho manual, que une criatividade e tradição, é também caminho de renda e de protagonismo para essas mulheres.
O cenário não é isolado. Em Alagoas, o artesanato feminino tem peso econômico e cultural considerável. Segundo dados do Programa Brasileiro do Artesanato (PAB), executado no estado pelo programa Alagoas Feita à Mão, quase 15 mil mulheres artesãs representam 80% dos mais de 18 mil artesãos formalizados no estado, desempenhando papel fundamental na preservação de técnicas tradicionais e na geração de renda para milhares de famílias.
Uma das tradições mais vivas dessa cultura é o bordado filé. Entre as lagoas Mundaú e Manguaba, uma tradição atravessa gerações e transforma fios de algodão em memória viva. O bordado filé é uma técnica artesanal profundamente ligada à história da região e ao cotidiano das comunidades lacustres, onde mulheres mantêm viva uma prática transmitida de geração em geração.
A sustentabilidade é parte central desse universo. Em Maragogi, por exemplo, em meio aos assentamentos rurais, mulheres extraem do pseudocaule da bananeira — estrutura que sustenta o caule e que até então era descartada — para criar uma matéria-prima com a qual bordam sonhos e constroem autonomia. São as Mulheres de Fibra, que tecem com as próprias mãos um modelo de negócio sustentável, fortalecendo a economia local e inspirando outras mulheres a reescrever suas histórias.
O impacto na vida dessas artesãs vai além da renda. Artesãs relatam que o artesanato foi o ponto de virada para a conquista da independência financeira: "Foi a partir do artesanato que comecei a ganhar meu próprio dinheiro, a comprar as minhas coisas e ajudar em casa", conta uma das integrantes.
O setor também tem apresentado resultados expressivos no mercado. Em 2025, as ações do Alagoas Feita à Mão se reverteram em R$ 1,1 milhão em vendas diretas, com destaque para a Fenearte, que superou R$ 568 mil, e a Fenacce, em Fortaleza, com R$ 347 mil.
O bordado alagoano também começa a cruzar fronteiras. A arte com raízes no Sertão alagoano está ganhando espaço até no verão europeu, com estilistas locais levando peças bordadas à mão para o catálogo de marcas portuguesas que valorizam o feito à mão e a sustentabilidade.
Para o mercado, o movimento segue uma tendência crescente. Analistas apontam que muitos estilistas e designers estão se inspirando nessas tradições, utilizando rendas e bordados como elementos de produção. "Existe essa tendência de mercado, de voltar um pouco do slow fashion, um pouco do que é nosso, do que é cultural", avalia a especialista Marina Gatto.
"Mãos de Maré" não é apenas um registro fotográfico ou textual. É um retrato de como o artesanato, quando sustentado por organização coletiva e valorização cultural, deixa de ser apenas tradição para se tornar futuro. Um futuro bordado, ponto a ponto, por mãos femininas que conhecem bem o ritmo das marés.






