Para quem vê Luciana Souza nas telas, pode parecer que tudo flui com naturalidade. Mas a atriz baiana, um dos nomes mais consistentes do cinema brasileiro atual, não tem dúvidas: o trabalho artístico é, antes de qualquer coisa, uma disputa diária pela sobrevivência. Essa é a visão que ela carrega depois de décadas de estrada — do palco do Bando de Teatro Olodum às grandes telas do mundo.
Com uma trajetória que começou no teatro ainda na década de 1980, Luciana participou da fundação e formação do Bando de Teatro Olodum e ficou conhecida pelo grande público por sua personagem Joana, no filme Ó Paí Ó (2007). Desde então, acumulou trabalhos de peso no cinema nacional. Ela integrou o elenco de filmes como Revolta dos Búzios (2018), Bacurau (2019), Na Rédea Curta (2022), Ó Paí Ó 2 (2023) e A Matriarca (2025). Por sua atuação no curta-metragem Inabitável (2020), recebeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Cinema de Gramado e outros oito prêmios em festivais nacionais e internacionais.
Agora, a atriz chega com mais um projeto de fôlego. Selecionado para o Festival de Berlim 2026 na seção Forum, Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha marca a estreia em longas da diretora Janaína Marques. Produzido no Ceará, o filme é um road movie do inconsciente que transforma imaginação, memória e delírio em gesto de cura.
O filme venceu o prêmio Tagesspiegel Readers Jury Award no Festival de Berlim, reconhecimento concedido pelos leitores do jornal alemão Tagesspiegel, que votaram em filmes exibidos na seção Fórum. Após a circulação internacional, o filme deve chegar às salas brasileiras em outubro, com passagem pelo Olhar de Cinema — Festival Internacional de Curitiba.
No longa, Luciana vive Dalva, uma mulher marcada por uma história de crime e aprisionamento, mas que, dentro do universo imaginativo da filha Rosa (Verônica Cavalcanti), surge como figura de liberdade absoluta. Durante uma ressonância magnética, Rosa tenta acessar uma lembrança feliz e, ao mergulhar em seu subconsciente, reconstrói uma história que nunca viveu: uma viagem com a mãe, Dalva — mulher livre e irreverente que chegou a ser presa por matar um homem prestes a cometer um feminicídio.
Segundo informações divulgadas pelo jornal A Tarde, a preparação para o papel envolveu meses de encontros virtuais com o diretor e preparador de elenco Armando Praça, antes mesmo de Luciana conhecer pessoalmente a diretora e a parceira de cena. A intimidade construída nesse processo foi decisiva para a construção da personagem — e uma mudança concreta também ajudou: Luciana pintou o cabelo de vermelho pela primeira vez, um gesto externo que ela descreve como transformador.
Além de atriz, Luciana Souza é dançarina, arte-educadora e pesquisadora. Possui formação em Filosofia pela Universidade Católica do Salvador (UCSAL), em Dança pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), e é mestra em Educação de Jovens e Adultos com foco nas artes cênicas decoloniais pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB).
Luciana não dissocia seu trabalho de posicionamentos político e social. É uma opção consciente da atriz baiana. Ao longo dos anos, ela construiu uma filmografia marcada por personagens que carregam pautas de gênero, raça e diversidade — escolha que ela define como parte natural de quem ela é, não como estratégia de carreira.
Para Luciana, receber um roteiro é sempre motivo de alegria, mas também de responsabilidade. Segundo a fonte original, ela descreve cada novo personagem como uma missão de dar uma nova vida a si mesma — uma postura que explica por que, mesmo depois de décadas de atuação, ela ainda encarna papéis com tanta entrega. A arte, para ela, não é conforto. É luta.







