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Cultura

Ele escreveu o poema, mas não viu o livro: a história por trás do ODO, obra inédita no Brasil

Jovem de 18 anos selecionado para o primeiro livro preto de poesia do país morreu antes do lançamento; mãe usou o prêmio em dinheiro para pagar o túmulo do filho.

Redação ChicoSabeTudo
21 de junho, 2026 · 19:07 3 min de leitura
Lançamento do livro ODO – Livro Preto de Poesia no Mirante da Santa Amélia, em Maceió (AL)
Lançamento do livro ODO – Livro Preto de Poesia no Mirante da Santa Amélia, em Maceió (AL)

Um jovem de 18 anos, negro, morador de periferia, interno de uma unidade socioeducativa em Alagoas, escreveu um poema que foi selecionado entre os melhores do país. Seu nome entrou para o índice de poetas do ODO – Livro Preto de Poesia, obra apontada como a primeira do gênero em todo o Brasil. Mas ele nunca chegou a segurar o livro nas mãos.

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No dia do lançamento oficial, em 30 de abril de 2022, no Mirante da Santa Amélia, em Maceió (AL), o menino estava morto. Quem foi até o evento para receber o prêmio em dinheiro e os exemplares foi Ivonete, a mãe. Silenciosa e contida, ela ouviu o poema do filho ser declamado pela deputada estadual Jó Pereira, que a acolheu com um longo abraço e um buquê de flores amarelas. As flores foram parar na cova do menino. O dinheiro do prêmio, para construir o túmulo.

"Odo" é uma palavra da língua iorubá que significa juventude — e o livro é exatamente isso: um ajuntamento poético de jovens negros das periferias que reinventam e enfrentam, a partir da palavra escrita, as vulnerabilidades sociais, territoriais e étnicas.

A obra foi escrita por jovens da periferia alagoana, socioeducandos e de assentamentos sem-terra, e resultou de um concurso realizado em 2019, por iniciativa do Instituto Raízes de Áfricas. Segundo a ativista Arísia Barros, coordenadora do Instituto, o ODO é a primeira obra do gênero em todo o Brasil.

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O "Odo-Concurso Preto de Poesia para Jovens da Periferia", com o lema "Eu, jovem pret@, resisto e insisto", selecionou versos que retratam o cotidiano, a luta, a resistência e a persistência. Foram 30 jovens selecionados, entre eles o menino da unidade de internação masculina administrada pela Secretaria de Estado de Prevenção à Violência de Alagoas (SEPREV). Segundo informações divulgadas pelo portal CadaMinuto, em conversas anteriores ao lançamento, o jovem duvidava do próprio futuro e questionava se "esse negócio de poesia é para pessoas como ele". Ainda assim, ensaiou a escrita de um poema com uma pergunta que pesava sobre si: "Eu sou um bandido?"

A ativista Arísia Barros estava ansiosa para mostrar ao jovem o próprio nome no índice do livro. Segundo o relato publicado pelo CadaMinuto, não deu tempo. A morte chegou primeiro. Ele tinha 18 anos.

O lançamento foi uma realização do mandato da deputada estadual Jó Pereira, com apoio do Instituto Raízes de Áfricas e da Prefeitura de Maceió. A deputada disse ser gratificante poder colaborar para que as obras fossem lançadas: "tanto para a Bia, que conheci durante uma visita à Unidade de Acolhimento de Campo Alegre, quanto para os jovens escritores do livro Odo, é extremamente significativo ter esse sonho realizado."

No caso do menino morto, o sonho virou homenagem póstuma. Segundo a narrativa da ativista Arísia Barros, o racismo estrutural impõe às mães negras uma serenidade forçada diante da perda dos filhos — uma espécie de calo na alma necessário para não sucumbir à violência cotidiana. Ivonete, discreta, com uma contenção que dizia mais do que qualquer grito, representou o filho com dignidade.

O livro ODO é "uma proposta de ruptura, uma ousada forma de legitimação e reconhecimento da literatura de jovens pretos da periferia que escrevem, querem ser considerados escritores como quaisquer outros." O jovem que duvidava de si mesmo agora é, para sempre, um escritor. Toda a sua vida cabe dentro de um livro de poemas. Tinha 18 anos.

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