Um jovem de 18 anos, negro, morador de periferia, interno de uma unidade socioeducativa em Alagoas, escreveu um poema que foi selecionado entre os melhores do país. Seu nome entrou para o índice de poetas do ODO – Livro Preto de Poesia, obra apontada como a primeira do gênero em todo o Brasil. Mas ele nunca chegou a segurar o livro nas mãos.
No dia do lançamento oficial, em 30 de abril de 2022, no Mirante da Santa Amélia, em Maceió (AL), o menino estava morto. Quem foi até o evento para receber o prêmio em dinheiro e os exemplares foi Ivonete, a mãe. Silenciosa e contida, ela ouviu o poema do filho ser declamado pela deputada estadual Jó Pereira, que a acolheu com um longo abraço e um buquê de flores amarelas. As flores foram parar na cova do menino. O dinheiro do prêmio, para construir o túmulo.
"Odo" é uma palavra da língua iorubá que significa juventude — e o livro é exatamente isso: um ajuntamento poético de jovens negros das periferias que reinventam e enfrentam, a partir da palavra escrita, as vulnerabilidades sociais, territoriais e étnicas.
A obra foi escrita por jovens da periferia alagoana, socioeducandos e de assentamentos sem-terra, e resultou de um concurso realizado em 2019, por iniciativa do Instituto Raízes de Áfricas. Segundo a ativista Arísia Barros, coordenadora do Instituto, o ODO é a primeira obra do gênero em todo o Brasil.
O "Odo-Concurso Preto de Poesia para Jovens da Periferia", com o lema "Eu, jovem pret@, resisto e insisto", selecionou versos que retratam o cotidiano, a luta, a resistência e a persistência. Foram 30 jovens selecionados, entre eles o menino da unidade de internação masculina administrada pela Secretaria de Estado de Prevenção à Violência de Alagoas (SEPREV). Segundo informações divulgadas pelo portal CadaMinuto, em conversas anteriores ao lançamento, o jovem duvidava do próprio futuro e questionava se "esse negócio de poesia é para pessoas como ele". Ainda assim, ensaiou a escrita de um poema com uma pergunta que pesava sobre si: "Eu sou um bandido?"
A ativista Arísia Barros estava ansiosa para mostrar ao jovem o próprio nome no índice do livro. Segundo o relato publicado pelo CadaMinuto, não deu tempo. A morte chegou primeiro. Ele tinha 18 anos.
O lançamento foi uma realização do mandato da deputada estadual Jó Pereira, com apoio do Instituto Raízes de Áfricas e da Prefeitura de Maceió. A deputada disse ser gratificante poder colaborar para que as obras fossem lançadas: "tanto para a Bia, que conheci durante uma visita à Unidade de Acolhimento de Campo Alegre, quanto para os jovens escritores do livro Odo, é extremamente significativo ter esse sonho realizado."
No caso do menino morto, o sonho virou homenagem póstuma. Segundo a narrativa da ativista Arísia Barros, o racismo estrutural impõe às mães negras uma serenidade forçada diante da perda dos filhos — uma espécie de calo na alma necessário para não sucumbir à violência cotidiana. Ivonete, discreta, com uma contenção que dizia mais do que qualquer grito, representou o filho com dignidade.
O livro ODO é "uma proposta de ruptura, uma ousada forma de legitimação e reconhecimento da literatura de jovens pretos da periferia que escrevem, querem ser considerados escritores como quaisquer outros." O jovem que duvidava de si mesmo agora é, para sempre, um escritor. Toda a sua vida cabe dentro de um livro de poemas. Tinha 18 anos.







