O Teatro Castro Alves (TCA) já tem data marcada para abrir as portas de novo: 1º de julho de 2026. O local está fechado há três anos, em razão de um incêndio que atingiu o telhado em 25 de janeiro de 2023, e vai ser reaberto na mesma data prevista para a conclusão da reforma completa do equipamento. O retorno, no entanto, não é apenas o fim de uma obra — é o terceiro recomeço de um teatro que o fogo tentou apagar duas vezes.
Fruto das ideias desenvolvimentistas do governador Antônio Balbino, a história do Teatro Castro Alves, que homenageia o "Poeta dos Escravos", possui momentos de grandes espetáculos e tragédias, como os dois incêndios que motivaram sua reforma. A trajetória do equipamento começa ainda na década de 1940, quando Salvador buscava recuperar o protagonismo cultural perdido ao longo das primeiras décadas da República.
A cidade sentia o peso de uma lacuna. O Teatro São João, o mais importante de Salvador no século XIX, desapareceu em 1923 em um incêndio misterioso. Sem um grande palco, a capital baiana encontrava dificuldades para receber companhias nacionais e internacionais enquanto cidades como Rio de Janeiro e São Paulo expandiam sua infraestrutura cultural. Foi nesse contexto que ganhou força a ideia de construir um novo teatro estadual.
Em 2 de junho de 1948, o então deputado estadual Antônio Balbino apresentou à Assembleia Legislativa o projeto de lei propondo a construção do novo espaço. As obras só começaram em 1957 — e o destino reservou uma surpresa amarga. O primeiro incêndio ocorreu antes mesmo da inauguração. Era a madrugada do dia 9 de julho de 1958 — cinco dias antes da abertura ao público — e a versão apurada oficialmente foi de que um curto-circuito havia destruído aquele que deveria ser o mais novo espaço cultural da cidade.
O processo de reconstrução do TCA durou nove anos. Ele foi reinaugurado em março de 1967. Ali se apresentaram, para horror de uma sociedade atônita, Gilberto Gil e Caetano Veloso — iniciando a grande agitação cultural que iria, partindo da Bahia, revolucionar o Brasil nos anos setenta. Desde então, o teatro se tornaria referência para gerações de artistas brasileiros e internacionais.
O segundo incêndio veio décadas depois. Em 25 de janeiro de 2023, um incêndio atingiu a parte mais alta do TCA, no teto da Sala Principal, próximo à Sala de Ensaios do Balé. O fogo começou à tarde e só foi encerrado 12 horas depois. O teto ficou completamente tomado pelas chamas, mas ninguém ficou ferido. A partir daí, o teatro mergulhou em sua maior obra da história contemporânea.
A reforma do TCA contou com um investimento de cerca de R$ 260 milhões do governo estadual. Tombado pelo Iphan desde 2014, o edifício foi submetido a intervenções estruturadas em cinco eixos — acessibilidade, restauro, segurança, atualização tecnológica e sustentabilidade —, com o objetivo de preservar a identidade arquitetônica do espaço e, ao mesmo tempo, adequá-lo às exigências contemporâneas.
A modernização incluiu medidas sustentáveis destinadas a reduzir impactos ambientais e ampliar a eficiência do equipamento. Entre as ações estão o reaproveitamento de materiais retirados do próprio teatro, a implantação de sistema de captação de águas pluviais e a substituição da iluminação por tecnologia LED.
O governador Jerônimo Rodrigues visitou pessoalmente o teatro em 24 de junho para acompanhar os ajustes finais. "Estamos nos últimos ajustes para entregar à Bahia e ao Brasil um teatro à altura da sua história. Muito em breve, o Teatro Castro Alves estará novamente de portas abertas, com uma estrutura moderna, atualizada e preparada para seguir como um dos maiores equipamentos culturais do país", afirmou o governador durante a visita.
A reabertura ocorrerá com estrutura requalificada em funcionamento, mas o equipamento seguirá até o fim do ano em fase de operação assistida. Em obras teatrais de grande porte, essa etapa é considerada necessária para a plena estabilização operacional do edifício. Durante a operação assistida, são realizados ajustes técnicos, testes de sistemas e correções operacionais, sem impedir a realização de programação artística.
A programação de reabertura não se concentrará em um único dia. "Vai começar no dia 1º, como já foi anunciado pelo governador, mas não será uma programação de um dia só", garantiu o secretário de Cultura Bruno Monteiro, destacando que haverá espaço para o conjunto das artes cênicas e performativas da Bahia: "O TCA é o lugar do teatro, da música, da dança, mas ele é o lugar das exposições, dos encontros." A reabertura será marcada por apresentações de Gilberto Gil e Lazzo Matumbi.







