Toda vez que junho chega, a casa de Álvaro Lessa, de 32 anos, ganha um movimento diferente. As portas se abrem para receber familiares, amigos e vizinhos no coração do bairro Santo Antônio Além do Carmo, em Salvador. O altar cresce, as flores tomam conta dos cômodos e as orações começam antes mesmo de o sol se pôr.
A relação de Álvaro com Santo Antônio não nasceu de uma promessa nem de um momento de crise. Ela simplesmente sempre esteve lá. Nascido e criado no bairro que carrega o nome do padroeiro, ele conta que as primeiras memórias da infância já vinham acompanhadas da devoção ao santo. Queria rezar, queria participar. Um dia pediu uma roupa de Santo Antônio para andar na procissão — e o desejo foi atendido.
"Era uma forma muito natural de admiração. Nasci aqui no bairro de Santo Antônio, então eu cresci com uma cultura voltada à devoção, mas também eu tinha uma relação espiritual muito profunda com ele", contou Álvaro em entrevista ao portal A TARDE. Com o tempo, ele passou a montar pequenos altares com os livros da avó e, já adulto, assumiu as rezas dentro da própria casa.
A história da família no bairro remonta a cerca de um século. A bisavó de Álvaro saiu de Cachoeira, no Recôncavo Baiano, e fez de Salvador seu lar. Quando ainda vivia, ela montava o presépio no Natal próximo a uma janela, chamando a atenção de quem passava pela rua. Ela faleceu em 2015, mas a tradição não morreu — apenas foi ampliada e adaptada para incluir também o padroeiro do bairro.
Hoje, o ciclo devocional de Álvaro começa em maio, com encontros diários dedicados a Nossa Senhora durante o chamado Mês de Maria. Em junho, inicia a trezena de Santo Antônio — 13 dias consecutivos de orações que antecedem a festa do santo, celebrada no dia 13. Ao todo, são 44 dias de espiritualidade intensa. "Eu sempre vivi de forma muito intensa os meses de maio e junho, em memória a Nossa Senhora e a Santo Antônio de Pádua", afirma.
Essa devoção doméstica ecoa uma tradição que vai muito além de uma família. As chamadas trezenas familiares têm início, via de regra, no dia 1 de junho, para findarem com festejos dos mais diversos, como danças acompanhadas de licor de jenipapo, canjica, balões multicolores, bolos e fogos. Em Salvador, o costume de rezar em casa remonta ao período colonial.
O bairro onde Álvaro cresceu é um dos mais antigos da cidade. Embora nunca tenha sido oficialmente declarado padroeiro da cidade pela Igreja, Santo Antônio foi o primeiro protetor da capital baiana reconhecido pela Câmara Municipal e pelo imaginário popular. Desde a fundação da Igreja Santo Antônio Além do Carmo, em 1594 — a primeira dedicada a Santo Antônio no Brasil — até relatos lendários de sua aparição no Dois de Julho, o santo é considerado um guardião espiritual da cidade.
Em 2025, a devoção ganhou novo peso institucional. A decisão de elevar a Igreja a Santuário foi fruto de um processo de discernimento pastoral e histórico, que teve como base a intensa devoção popular a Santo Antônio, especialmente durante a tradicional trezena celebrada anualmente. "Mais de 10 mil pessoas participaram da trezena campal no ano passado. É o povo que faz o santuário, escolhendo esse lugar como referência espiritual e de peregrinação", afirmou o pároco, padre Jailson Jesus.
Para Álvaro, porém, números não são o ponto. O que importa é o que acontece dentro de casa, entre as pessoas que escolhem estar ali. "As pessoas que participam falam: 'nós sentimos a presença de Santo Antônio em tudo o quanto eu faço', porque a gente faz com amor, e tudo que é feito com amor atrai o amor para próximo", disse ele.
A festa do bairro acontece no dia 13 de junho, com missa festiva, procissão pelas ruas do Santo Antônio e do Barbalho e benção de Santo Antônio. Para Álvaro, a celebração na rua e a que acontece dentro de casa não são duas coisas separadas — são a mesma fé em endereços diferentes.







