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Cultura

Chama que não apaga: viúvas do interior baiano resistem para preservar o ritual do fogo de São Pedro

Em comunidades rurais do sudoeste da Bahia, mulheres que perderam seus maridos mantêm acesa uma prática centenária de fé, pertencimento e memória — mas a tradição enfrenta o risco do esquecimento.

Redação ChicoSabeTudo
28 de junho, 2026 · 18:23 3 min de leitura
Fogueira acesa em frente a uma casa no interior da Bahia na noite de São Pedro
Fogueira acesa em frente a uma casa no interior da Bahia na noite de São Pedro

Todo ano, na véspera do dia 29 de junho, uma chama discreta ainda se acende nos quintais de algumas casas do interior baiano. Não é animação de arraial, não tem trio elétrico. É a fogueira das viúvas — um rito de fé e memória dedicado a São Pedro, o santo que, segundo a tradição popular, também teria sido viúvo.

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Nos municípios de Macaúbas, Botuporã e Tanque Novo, na região sudoeste da Bahia, a prática é predominantemente feminina, embora homens viúvos também a adotem ocasionalmente, conforme relatos de moradores e historiadores locais. Segundo a tradição, é obrigação dos viúvos e das viúvas acender uma fogueira na porta de casa durante a noite do dia 29.

A ligação entre São Pedro e as viúvas não tem origem oficial nos textos sagrados, mas está enraizada na religiosidade popular. A tradição oral relacionou São Pedro como padroeiro de viúvos e viúvas pelo fato de Jesus ter curado a sogra do apóstolo, sem que haja referência à esposa dele — o que levou à conclusão de que ele poderia ter sido viúvo. Não é uma comprovação sólida, mas há relatos históricos de que Pedro teria sido casado e ficado viúvo.

No povoado de Curralinho, zona rural de Macaúbas, Maria Rosa Batista, de 71 anos, conta que a tradição existia antes mesmo de ela nascer. Além da fogueira, o costume envolve comidas típicas e festejos com música, de forma semelhante ao São João. Segundo informações divulgadas pelo G1 Bahia, ela explica que, nas casas em que outras famílias moravam junto, eram acendidas duas fogueiras separadas — uma para São João e outra para São Pedro.

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Olevina Auta Batista, também moradora de Curralinho e com 94 anos, acende a fogueira há mais de quatro décadas. O hábito começou um ano após a morte do marido, como manda o costume. Ela reúne filhos, netos e bisnetos ao redor da fogueira todos os anos, tentando garantir que a prática sobreviva mais uma geração. Zulmira Dias, de 65 anos, da comunidade de Pajeú, em Botuporã, entrou na tradição da mesma forma — e dá a ela um tom diferente: para ela, não é uma data alegre, mas um momento para celebrar a vida de quem ficou e lembrar quem se foi.

O historiador Uilson Magalhães Silva, professor da rede pública de Botuporã, aponta que o costume chegou ao Brasil vindo da Península Ibérica com os colonizadores portugueses. As festas juninas chegaram ao Brasil por intermédio dos portugueses no período colonial, já com a vocação religiosa de homenagem aos santos — em terras lusitanas, eram chamadas de Festas Joaninas. Com o tempo, a fogueira foi adotada não somente em homenagem a São João, mas também para representar o culto a outros santos lembrados em junho — como São Pedro, no dia 29, o protetor das viúvas.

Segundo informações divulgadas pelo G1 Bahia, o historiador também destaca que, no passado, as viúvas sofriam forte estigma social, e a fogueira de São Pedro funcionava tanto como ato de devoção quanto como afirmação de identidade dentro da comunidade. Para os homens viúvos, a tendência histórica era justamente a oposta: o afastamento da condição de viúvo, e não sua celebração pública.

A tradição, no entanto, enfrenta uma ameaça silenciosa. São Pedro é padroeiro dos viúvos, dos pescadores e do papa, e no Nordeste brasileiro é especialmente venerado, pois a ele é atribuído o poder sobre as chuvas. Mesmo com essa devoção regional, o rito das fogueiras vem perdendo força nas últimas décadas, especialmente entre os mais jovens. Viúvas mais novas, em grande parte, não demonstram interesse em continuar o costume — algumas porque não conhecem a tradição, outras porque voltam a se casar.

O que resta é o que Olevina, Zulmira e Maria Rosa fazem todo 29 de junho: acender o fogo, reunir a família e manter viva uma prática que mistura saudade, fé e resistência cultural. Na religiosidade popular, São Pedro representa não só a guarda dos céus, mas também um símbolo de renovação e amparo — e para as viúvas, ele representa a saudade, a força espiritual e a possibilidade de recomeço.

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