Uma disputa silenciosa e de alta tecnologia tem se desenrolado a milhares de quilômetros da Terra, onde satélites dos Estados Unidos e da China, e também da Rússia, realizam manobras arriscadas que lembram um verdadeiro 'combate aéreo'. Essa "dança" tática acontece principalmente na órbita geoestacionária, a cerca de 35 mil km de altitude, uma região crucial para a vigilância, comunicação e alerta de mísseis.
Autoridades de defesa chamam essas aproximações táticas de 'combate aéreo' no espaço, uma prova da militarização cada vez mais rápida da órbita terrestre. As naves voam próximas por horas ou dias para tentar ganhar vantagem, registrando imagens detalhadas de outros satélites para descobrir seus sistemas e capacidades. Além disso, elas podem monitorar ou até mesmo bloquear sinais, interferindo em serviços essenciais.
Manobras Perigosas e o Jogo de Xadrez Espacial
Um exemplo claro dessa tensão aconteceu em 2022. A espaçonave norte-americana USA 270 se aproximou de dois satélites chineses recém-lançados. Em uma inversão de papéis, um dos satélites chineses diminuiu a velocidade, ficando atrás do perseguido e forçando os operadores dos EUA a repensar seus próximos passos. Esse episódio, apesar de não confirmado publicamente por nenhum dos dois países, ilustra a complexidade e a natureza estratégica dessas operações.
A China, por exemplo, tem mostrado grande capacidade. O satélite Shijian-21, em 2022, usou um braço robótico para "resgatar" um satélite inoperante, levando-o para a "órbita cemitério". Enquanto a China apresentou a ação como um serviço de remoção de detritos, autoridades americanas veem ali uma capacidade ofensiva. Em tese, a mesma técnica poderia ser usada para desviar um satélite de navegação ou de alerta de mísseis de outro país.
Mais recentemente, o Shijian-25 manobrou em direção ao Shijian-21 e, após semanas voando juntos, as naves se acoplaram para testar o reabastecimento em órbita. Os EUA monitoram de perto para ver se o Shijian-21 voltará a manobrar, confirmando o sucesso do reabastecimento e a extensão da vida útil do equipamento. O general Stephen Whiting, comandante do Comando Espacial dos EUA, confirmou que reabastecimento em órbita e sistemas de propulsão mais duradouros também estão nos planos americanos.
O Que Dizem os Especialistas e Envolvidos
“Tradicionalmente, os satélites não eram projetados para combater, nem para se protegerem em uma luta. Isso tudo está mudando agora”, explicou Clinton Clark, diretor de crescimento da ExoAnalytic Solutions, empresa que monitora atividades espaciais.
Segundo o general Whiting, a China tem se movimentado de formas que, em um conflito, podem dar a eles uma posição de vantagem sobre os EUA. Ele afirmou que Washington busca manter a liderança e desenvolver "capacidades de manobra para permanecer em uma posição de vantagem e nos defender".
Em resposta, Liu Pengyu, porta-voz da Embaixada da China em Washington, negou qualquer intenção de corrida espacial, declarando que o país "está comprometido com o uso pacífico do espaço sideral e se opõe a qualquer corrida armamentista no espaço sideral ou à sua militarização".
“Está ficando lotado lá em cima, e é melhor começarmos a observar mais de perto”, alertou Paul Graziani, CEO da COMSPOC. “Há muitas atividades que estão caminhando para níveis de hostilidade.”
Rússia e a Complexidade da Ameaça Espacial
A Rússia também entra nessa equação com suas próprias táticas. O ministro da Defesa da Alemanha, Boris Pistorius, denunciou um satélite russo que orbitava perigosamente perto de um satélite comercial alemão, afirmando que essas naves "podem interferir, cegar, manipular ou perturbar cineticamente" outros satélites.
Além disso, a Rússia opera naves que funcionam como bonecas matrioskas: em órbita, elas liberam satélites menores, que por sua vez podem lançar um projétil com potencial de arma. "Não há segurança espacial, nem aplicação de sustentabilidade espacial para isso", comentou Darren McKnight, da LeoLabs. Essas naves já foram vistas próximas a satélites de inteligência dos EUA.
O ministro Pistorius resumiu bem a situação: “Nosso calcanhar de Aquiles está no espaço.”
A Caminho da "Superioridade Espacial"
Os EUA buscam a "superioridade espacial", ou seja, a capacidade de operar livremente no espaço, assim como já fazem nos mares e céus. Essa busca inclui o desenvolvimento de frotas de naves autônomas, que poderiam interceptar mísseis, uma parte do proposto escudo antimísseis Domo de Ouro.
No passado, a "guerra espacial" se limitava a destruir satélites com mísseis lançados da Terra. A China realizou um teste em 2007, a Rússia e a Índia também, e os EUA, que destruíram um satélite em 1985, agora lideram os esforços para conter essas ações devido à grande quantidade de detritos que elas geram.
Hoje, o confronto direto entre naves é incipiente, mas o leque de ferramentas em desenvolvimento é vasto e preocupante:
- Interferência de sinais
- Lasers
- Micro-ondas
- Projéteis cinéticos
Com mais autonomia e o uso de inteligência artificial, o número de veículos envolvidos tende a crescer, abrindo caminho para formações complexas e "técnicas de enxame", como demonstrado pela China em 2023, quando cinco de seus satélites voaram a apenas 800 metros de distância uns dos outros em um exercício que autoridades americanas descreveram como "combate aéreo no espaço".
O Comando Espacial dos EUA garante que busca operar de forma profissional, dando visibilidade às manobras e mantendo distâncias e trajetórias seguras para evitar erros de cálculo ou colisões. Contudo, a cada nova manobra, a linha entre a exploração pacífica e a disputa militar no espaço se torna mais tênue, e a atenção global se volta para o que acontece a 35 mil quilômetros acima de nossas cabeças.







