O fenômeno climático El Niño está de volta, e desta vez com força suficiente para atingir o bolso de quem faz compras nas feiras e supermercados do Nordeste. Segundo dados do INMET, baseados nas projeções da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), a probabilidade de estabelecimento do El Niño ultrapassa 90% no segundo semestre de 2026, com tendência de persistência até 2027.
Para o Nordeste, o cenário é de alerta máximo. O fenômeno atua desviando o fluxo de umidade da Amazônia que normalmente abasteceria a região, redirecionando-o para o Sul do país. O resultado direto é menos chuva no Sertão e no Agreste — justamente no período da quadra chuvosa, responsável por mais de 70% da recarga hídrica anual em estados como Alagoas, segundo informações divulgadas pelo portal CadaMinuto.
O INMET confirmou que, durante episódios de El Niño, observa-se nas regiões Norte e Nordeste "uma tendência de redução das chuvas e maior frequência de períodos de estiagem, o que compromete o desempenho das lavouras e a disponibilidade hídrica, elevando o risco de perdas, especialmente em sistemas de sequeiro". A Bahia, como parte desse recorte, está no caminho do fenômeno.
A cadeia de consequências começa no campo. A seca severa projetada pelo Cemaden deve atingir diretamente culturas de subsistência como o feijão e a mandioca. Com menos pasto disponível, o gado perde peso e os custos de produção sobem para o pecuarista, impactando o preço da carne ao consumidor final. Quem cria aves e suínos também sente o golpe: soja e milho — base da ração animal — encarecem quando o El Niño afeta grandes polos produtores mundiais.
Especialistas ouvidos pela UFAL em Arapiraca, segundo o CadaMinuto, explicam que a lógica é simples: com menos chuva, diminui a área plantada, cai a produção e o agricultor perde a safra. Cidades que dependem economicamente da agricultura do entorno sofrem o reflexo imediato, com queda na renda circulante no comércio urbano. Até produtores que usam irrigação por poços artesianos podem ser afetados, já que o rebaixamento do lençol freático seca os poços mais rasos.
O impacto não é só local. Análises da Gazeta do Povo e de consultorias como a Hedgepoint Global Markets apontam que "o fenômeno pode alterar padrões climáticos globais, elevando o risco de eventos como seca, chuvas excessivas e ondas de calor em importantes regiões produtoras, com impactos diretos sobre produtividade e preços agrícolas". Especialistas estimam que o El Niño pode adicionar quase 1 ponto percentual à inflação geral de 2026.
O feijão já vinha pressionado antes mesmo do El Niño se confirmar. Levantamento do Dieese e da Conab registrou alta do grão em todos os centros urbanos pesquisados no país. Com o fenômeno climático se somando à redução de área plantada, a tendência é de mais pressão sobre um alimento que já está entre os mais caros da cesta básica.
Para o Sertão do São Francisco — que inclui a região de Paulo Afonso e municípios baianos do semiárido —, o alerta é redobrado. Segundo o INMET, o fenômeno deve ter efeitos mais intensos justamente nas áreas com menor influência direta do Oceano Atlântico, como o Agreste e o Sertão. A recomendação de especialistas é clara: planejar desde já o uso racional da água e apoiar os agricultores com políticas de convivência com a seca.
A intensificação do El Niño ao longo do segundo semestre de 2026 sugere um período de estiagem mais prolongado do que a média histórica, com especialistas do Cemaden apontando que os efeitos podem se estender até 2027. Quem depende da chuva para plantar — e quem depende do mercado para se alimentar — já pode começar a se preparar.







