Comprar um carro elétrico no Brasil deixou de ser só uma questão de autonomia. Antes de fechar negócio, o consumidor quer saber onde vai recarregar, quanto tempo o veículo ficará parado e se a rotina permite depender de pontos públicos, carregador doméstico ou estrutura de condomínio. A pergunta mudou — e o mercado está correndo para responder.
Quem trabalha em concessionária já percebeu a mudança. Segundo Luciano Santana, supervisor de serviços da Eurovia Renault e técnico credenciado em veículos elétricos Geely e Renault, as dúvidas mais frequentes de quem chega às lojas envolvem autonomia, tempo de carga, garantia da bateria e disponibilidade de carregadores, conforme relato publicado pelo jornal A Tarde.
Na prática, o comprador não leva apenas um carro para casa. Ele adota uma nova lógica de abastecimento, baseada em planejamento e aplicativos. A médica neurologista Karla Coelho, dona de um Geely EX5, conta que carrega o veículo em casa durante a noite e usa pontos públicos em shoppings como complemento. Para ela, a chamada "ansiedade de autonomia" desapareceu depois de algumas semanas de uso. Já a nutricionista Nara Goodwin, dona de um Geely EX2, enfrenta situação diferente: o condomínio onde mora não tem ponto de recarga, e ela depende de eletropostos públicos rápidos, consultando o aplicativo PlugShare antes de sair. "Com o carro elétrico, você muda a lógica de 'ir abastecer' para 'abastecer onde você já está'", resumiu, de acordo com a mesma publicação.
A Bahia ocupa posição de destaque nesse cenário. Entre os estados nordestinos, a Bahia é líder absoluta em número de eletropostos, com 640 unidades registradas, sendo 487 de recarga lenta (AC) e 153 de recarga rápida (DC), segundo dados da ABVE. E o crescimento é consistente: de fevereiro de 2025 a fevereiro de 2026, o número de municípios com eletropostos no Nordeste cresceu 26,4%, passando de 326 para 412 localidades com infraestrutura instalada.
No país, o cenário também avança rapidamente. O Brasil chegou a 21.061 pontos públicos e semipúblicos de recarga, segundo atualização da base nacional até fevereiro de 2026, apurada pela ABVE e Tupi Mobilidade. Os carregadores DC já representam 31% do total da rede — contra apenas 16% em fevereiro de 2025. Mesmo assim, menos de 20% dos municípios nordestinos têm pontos de recarga, e a infraestrutura ainda é concentrada e desigual.
Na Bahia, uma das empresas que atuam no segmento é a Elevva Eletropostos, fundada pelos sócios Billy Anderson Cerqueira, Luan Suede e Wilson Caldas. Conforme informações divulgadas pelo A Tarde, a empresa trabalha com implantação, operação e gestão de eletropostos públicos e privados em Salvador, Lauro de Freitas e outros pontos estratégicos do estado, com expansão prevista para corredores rodoviários como a BR-324. Para Billy Cerqueira, "o motorista baiano já começa a pesquisar onde poderá recarregar antes mesmo de adquirir o veículo".
A recarga em condomínios também entrou na pauta legislativa. O plenário da Assembleia Legislativa da Bahia aprovou, no dia 12 de maio de 2026, por unanimidade, o projeto de lei do deputado Eduardo Salles que regulamenta o direito à instalação de estações individuais de recarga em edificações residenciais e comerciais no estado. A proposta estabelece critérios técnicos, exige conformidade com normas da distribuidora local de energia e da ABNT, determina execução por profissional habilitado e segue agora para sanção do governador Jerônimo Rodrigues.
Empreendimentos imobiliários cujos projetos sejam aprovados após a entrada em vigor da lei deverão prever, em seus sistemas elétricos, capacidade mínima para suportar a futura instalação de estações de recarga. O texto ainda abre caminho para que o Estado institua programas de incentivo com isenções fiscais e linhas de crédito específicas.
Enquanto a lei aguarda sanção, a norma que vale na Bahia para instalações em residências e condomínios é a Norma Técnica 45/2026 do Corpo de Bombeiros Militar do estado. Segundo o engenheiro eletricista Gerson Sampaio, da Teknergia ElektroBA, com 40 anos de experiência no setor, a instalação de um ponto de recarga em casa ou condomínio costuma levar um dia e custa, em média, de R$ 2,5 mil a R$ 4,5 mil — valor que pode aumentar se o prédio precisar de adequações maiores na rede elétrica, conforme informações do A Tarde.
O quadro geral aponta uma transição em curso: carro elétrico deixou de ser exceção nas ruas baianas e passou a exigir planejamento urbano, legislação clara e infraestrutura capaz de acompanhar o crescimento das vendas. Para o comprador, a pergunta já não é só "qual modelo escolher", mas também "onde vou carregar amanhã".







