A União Europeia está em uma corrida contra o tempo para garantir sua autonomia digital e diminuir a forte dependência de empresas de tecnologia dos Estados Unidos. O motivo? Tensões geopolíticas recentes, especialmente as declarações do ex-presidente Donald Trump, transformaram o debate sobre a “soberania tecnológica” em uma questão de segurança nacional urgente para o continente.
Antes considerada uma discussão teórica, a ideia de a Europa se libertar da infraestrutura digital americana ganhou força após ameaças de Trump, incluindo a possibilidade de usar força na Groenlândia. Mesmo com a retirada da ameaça, o episódio deixou um rastro de insegurança entre os países aliados. O medo principal é que uma decisão direta da Casa Branca, com uma simples assinatura, possa cortar o acesso europeu a serviços essenciais, como centros de dados, softwares de e-mail e infraestruturas de nuvem, que são vitais para governos e empresas.
“Quando você começa a ter esse tipo de pensamento, mesmo que sejam apenas pensamentos, você precisa começar a pensar: como isso funcionaria?” – Bernard Liautaud, da Balderton Capital.
A preocupação é real e baseada em números claros. Em 2024, a Europa gastou quase 25 bilhões de dólares em serviços de infraestrutura das cinco maiores empresas de nuvem americanas, como Amazon, Google e Microsoft. Isso representa impressionantes 83% de todo o mercado europeu de nuvem. Embora a Europa tenha sido pioneira na era móvel com empresas como Nokia e Ericsson, ela ficou para trás na corrida da internet, sem criar gigantes tecnológicos do mesmo porte dos EUA e da China.
“Escolher a tecnologia digital americana por padrão é muito fácil e deve acabar.” – Nicolas Dufourcq, chefe do banco estatal francês Bpifrance.
Essa dependência estrutural foi um dos tópicos mais quentes no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. Lá, líderes e executivos reconheceram que substituir essa vasta infraestrutura é um desafio enorme, dada a profunda integração de chips, serviços de nuvem e modelos de Inteligência Artificial americanos na economia do bloco.
A resposta da Europa: Soberania Tecnológica
Diante desse cenário, a resposta política da União Europeia tem sido contundente. O Parlamento Europeu já aprovou uma resolução que incentiva o uso de critérios em compras públicas para favorecer produtos e empresas europeias. O órgão executivo da UE também está trabalhando em novas leis que tratam abertamente dos riscos de segurança relacionados à tecnologia vinda dos EUA, um tipo de conversa que seria impensável há pouco tempo.
A liderança desse movimento vem principalmente da França e da Alemanha. O chanceler alemão Friedrich Merz e o presidente francês Emmanuel Macron têm sido vozes importantes na busca pela independência tecnológica. A Alemanha, por exemplo, já está testando o openDesk, uma alternativa de código aberto às ferramentas da Microsoft, em seus ministérios. Já Macron tem priorizado a promoção de empresas locais, como a Mistral AI, e a atração de centros de dados para a França.
“Nossa vontade é claramente fazer tudo o que pudermos para construir campeões europeus. Isso é apenas uma recusa em ser vassalo.” – Emmanuel Macron, presidente da França.
Como as gigantes americanas reagem
As grandes empresas de tecnologia do Vale do Silício estão atentas a essa mudança. Com exportações de serviços digitais para a Europa que superaram 360 bilhões de dólares em 2024, há muito em jogo. Para não perderem esse mercado, companhias como Microsoft, Amazon e Google estão investindo pesado no conceito de “Nuvem Soberana”.
Essa estratégia permite que os dados dos clientes europeus permaneçam em solo europeu, operados por cidadãos ou empresas locais, e, o mais importante, blindados de qualquer solicitação legal americana. A Microsoft expandiu um acordo com a Delos Cloud na Alemanha, e a Amazon lançou um serviço similar, gerido exclusivamente por cidadãos da UE. O Google também seguiu o mesmo caminho, criando parcerias na França para proteger seus clientes de possíveis interferências externas.
No fim das contas, a Europa não busca um isolamento total, mas sim um maior controle, segurança e proteção sobre sua própria infraestrutura digital. É uma decisão estratégica para garantir que a chave de sua economia e segurança não esteja no bolso de outro país.







