Imagine uma forma de se proteger da gripe que não seja a vacina tradicional. Pesquisadores da Leyden Labs, nos Países Baixos, estão bem perto de tornar isso realidade. Eles divulgaram resultados iniciais muito animadores de um spray nasal experimental, que promete uma nova abordagem para prevenir a gripe.
O estudo, publicado na prestigiada revista Science Translational Medicine, focou na segurança do produto e em como ele se comporta no nosso corpo. Os dados mostram que esse spray pode ser uma alternativa eficaz, especialmente porque a gripe sazonal é uma preocupação enorme, atingindo até 1 bilhão de pessoas e causando centenas de milhares de mortes todos os anos no mundo.
Um jeito diferente de combater o vírus
As vacinas que conhecemos são a principal ferramenta de prevenção, mas sua eficácia pode variar. Isso acontece porque a proteção depende da previsão das cepas do vírus que vão circular a cada ano. No melhor dos cenários, a proteção chega a uns 50%, o que mostra que ainda precisamos de mais opções.
A grande sacada da equipe da Leyden Labs é outra: eles querem parar o vírus antes mesmo que ele consiga entrar e causar a infecção. O spray é aplicado diretamente no nariz, o ponto de entrada principal do vírus da gripe. Dentro dele, existe um anticorpo especial chamado CR9114, que foi desenvolvido pela gigante farmacêutica Johnson & Johnson.
Publicidade“Ao contrário das vacinas convencionais, que reconhecem apenas cepas específicas, esse anticorpo consegue identificar e neutralizar quase todos os tipos de influenza A e B.”
Isso é uma vantagem e tanto, pois significa que o spray não dependeria de prever qual tipo de gripe estará em alta, oferecendo uma proteção mais ampla.
Como foram os testes e o que eles revelaram
Antes de chegar aos humanos, o spray foi testado em camundongos e macacos, e demonstrou proteção contra a infecção nesses animais. Depois, os pesquisadores deram o próximo passo, com um estudo preliminar que envolveu 143 voluntários saudáveis, com idades entre 18 e 55 anos.
Os participantes receberam o spray de duas formas: uma dose única ou duas aplicações por dia durante duas semanas. O objetivo principal era verificar a segurança do produto e sua “farmacocinética” – um nome complicado para entender como o anticorpo age e quanto tempo ele fica no organismo. Para isso, foram coletadas amostras do nariz em vários momentos para medir a presença do CR9114.
Além de observar o comportamento do anticorpo no corpo, os cientistas também pegaram essas amostras nasais e as colocaram em contato com vírus da gripe vivos em laboratório. O intuito era checar se o anticorpo ainda conseguia neutralizar a infecção, mesmo depois de estar no nariz dos voluntários.
Resultados promissores e os próximos passos
As notícias são excelentes: nenhum efeito colateral grave foi registrado entre os voluntários do estudo. A aplicação duas vezes ao dia se mostrou mais eficaz, já que o nariz se limpa naturalmente e o anticorpo tem uma “meia-vida” (o tempo que ele permanece ativo) de cerca de três horas.
Mesmo depois de um tempo no ambiente nasal, o CR9114 continuou totalmente ativo, conseguindo neutralizar os vírus da influenza A e B. Um dos achados mais impressionantes foi a concentração do anticorpo na mucosa nasal, que chegou a ser até 4.600 vezes maior do que a conseguida por métodos tradicionais de aplicação intravenosa, usando doses bem menores.
Os autores da pesquisa estão otimistas e afirmam que a aplicação do CR9114 diretamente no nariz se mostrou segura em humanos e eficaz nos testes com primatas. Isso abre um caminho promissor para usar anticorpos dessa forma como uma prevenção ampla contra a gripe.
Apesar dos dados animadores, os cientistas ressaltam que ainda é preciso confirmar a eficácia do spray em infecções naturais. Além disso, eles querem investigar se o método é capaz de reduzir a transmissão do vírus entre as pessoas. Os próximos estudos trarão mais clareza sobre o potencial dessa inovação.







