Pesquisadores brasileiros do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) desenvolveram uma ferramenta inovadora capaz de identificar áreas de risco de deslizamentos de terra com uma precisão muito maior. O novo método, chamado AHP Gaussiano, foi testado com sucesso em São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, e promete ser um aliado importante para a prevenção de desastres naturais.
A ideia principal por trás dessa criação é diminuir as dúvidas e fazer com que a análise de risco se aproxime mais da realidade dos deslizamentos. Com o avanço das mudanças climáticas, que aumentam a frequência de eventos extremos, ter ferramentas eficazes como essa se torna cada vez mais urgente para a segurança das comunidades.
Como o novo método funciona na prática?
Tradicionalmente, a identificação de áreas de risco depende bastante da opinião de especialistas, que avaliam fatores como inclinação do terreno, proximidade de rios e tipo de solo. O problema é que essa avaliação pode ter diferentes interpretações.
O método AHP Gaussiano muda o jogo. Ele usa uma técnica estatística avançada, a curva de Gauss, para calcular o peso de cada fator de forma totalmente objetiva. Em vez de depender apenas do olhar humano, a ferramenta utiliza dados reais do terreno. Rômulo Marques-Carvalho, doutorando do ICMC-USP e um dos principais autores do estudo, explica a importância:
Publicidade“Mesmo que o ganho numérico seja pequeno, o método reduz dúvidas e se aproxima mais do que acontece de verdade com os deslizamentos.”
Para criar mapas de risco mais confiáveis, o AHP Gaussiano considera uma série de informações cruciais sobre a região:
- A elevação e inclinação das encostas;
- A distância de rios e estradas;
- O tipo de solo e como o terreno está coberto (vegetação, construções);
- Os padrões de ocupação urbana e as construções existentes.
A pesquisa, que foi publicada na revista Scientific Reports, mostra que, com ferramentas estatísticas acessíveis, os municípios podem identificar suas áreas de risco e agir de forma preventiva, mesmo que não tenham muitos recursos. Isso porque a metodologia é relativamente simples de usar.
Resultados concretos em São Sebastião
Para comprovar a eficiência do AHP Gaussiano, os pesquisadores fizeram um estudo detalhado em São Sebastião, usando imagens aéreas de alta resolução e fotos de plataformas como o Google Earth. Eles catalogaram mais de 983 pontos onde os deslizamentos começaram (chamados de “coroas”) e mais de 1.070 áreas afetadas (as “cicatrizes”).
O resultado foi claro: o novo método classificou 26,31% da área estudada como de “risco muito alto”, enquanto o método tradicional apontou 23,52%. Essa diferença, mesmo que pareça pequena, representa uma capacidade muito maior de identificar as regiões mais perigosas, permitindo que as prefeituras tomem decisões mais assertivas.
Impacto além dos deslizamentos e a acessibilidade da ferramenta
A aplicação dessa tecnologia vai além da prevenção de deslizamentos. Ela pode ser usada para ajudar a prever e combater outros problemas ambientais graves, como incêndios florestais, desmatamento, rebaixamento do solo e até a desertificação.
André Ferreira de Carvalho, orientador de Marques-Carvalho no estudo, destaca que a frequência crescente de desastres naturais por conta das mudanças climáticas torna ferramentas como o AHP Gaussiano ainda mais valiosas. E o melhor é que, segundo Marques-Carvalho, o método é bastante prático para as prefeituras:
“O método é simples de usar. Uma prefeitura precisa apenas de dados geoespaciais básicos e um computador comum com QGIS, um software livre de análise de mapas.”
Isso significa que, com um investimento mínimo, muitas cidades brasileiras podem se beneficiar dessa inovação, protegendo vidas e o meio ambiente com mais inteligência e precisão.







