A farmacêutica Eli Lilly divulgou resultados de um estudo de fase 3 com a retatrutida, nova molécula aplicada em caneta injetável semanal para tratamento da obesidade, que apresentou perda de peso média de 28,7% após 68 semanas em adultos com obesidade e osteoartrite de joelho. Os dados, que aproximam o efeito do medicamento ao de cirurgias bariátricas, foram apresentados no estudo TRIUMPH‑4 e divulgados pela empresa em comunicado global em 11 de dezembro de 2025.
A retatrutida é vista como uma “versão 2.0” na linha de terapias emagrecedoras da Eli Lilly, mesma fabricante do Mounjaro (tirzepatida). Em voluntários que receberam as doses mais altas, alguns pacientes perderam mais de 30 kg em comparação com o grupo que recebeu placebo associado apenas a plano alimentar e de exercícios.
Como foi o estudo TRIUMPH‑4
O TRIUMPH‑4 é um estudo de fase 3, randomizado e controlado com placebo, que avaliou a segurança e a eficácia de duas doses semanais de retatrutida (9 mg e 12 mg) em adultos com obesidade ou sobrepeso associados à osteoartrite de joelho, sem diabetes. Ao todo, 445 participantes foram acompanhados por 68 semanas, cerca de um ano e meio, com escalonamento gradual da dose a partir de 2 mg até o alvo, a cada quatro semanas.
Segundo a Eli Lilly, 84% dos participantes tinham obesidade grave (IMC ≥ 35 kg/m²). A média de peso inicial foi de 112,7 kg, com IMC médio de 40,4 kg/m². Os principais desfechos avaliados foram:
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Percentual de mudança no peso corporal em relação ao início do estudo
Redução da dor no joelho, medida pela escala WOMAC (Western Ontario and McMaster Universities Osteoarthritis Index)
Além disso, foram analisados desfechos secundários, como melhora da função física, proporção de pacientes que atingiram perdas de 25%, 30% e 35% do peso inicial, e impacto em marcadores de risco cardiovascular.
Resultados: perda de peso próxima à bariátrica e alívio da dor
Nos participantes que receberam a maior dose (12 mg), a perda média de peso foi de 28,7%, o equivalente a 32,3 kg (71,2 libras) após 68 semanas. Na dose de 9 mg, a redução foi de 26,4%, ou 29,1 kg em média. O grupo placebo, submetido apenas a intervenções de estilo de vida, perdeu 2,1% do peso, aproximadamente 2,1 kg.
Entre os pacientes em altas doses, quase 40% atingiram perda ≥ 30% do peso corporal
Até 23,7% alcançaram redução ≥ 35% do peso
A eficácia em perda de peso supera a observada com outras canetas emagrecedoras já em uso ou em desenvolvimento
No componente articular, a retatrutida reduziu a dor na escala WOMAC em até 4,5 pontos, o que representa cerca de 75,8% de melhora em relação à média inicial de 6 pontos. Em comparação, o grupo placebo teve redução de 2,4 pontos (40,3%). Análises adicionais mostraram que mais de 1 em cada 8 pacientes em retatrutida relatou estar sem dor no joelho ao final do estudo, contra 4,2% no grupo placebo.
A combinação entre grande perda de peso e melhora expressiva da dor reforça o interesse de pesquisadores e da indústria em terapias que atuem simultaneamente em obesidade e doenças osteoarticulares.
Como a retatrutida se diferencia de Mounjaro, Ozempic e outras canetas
A retatrutida pertence ao grupo dos análogos de incretinas, medicamentos que modificaram o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. A classe inclui a semaglutida, princípio ativo de Ozempic e Wegovy, e a tirzepatida, base do Mounjaro, já utilizada para diabetes e aprovada em alguns mercados para obesidade.
Enquanto:
Semaglutida atua como agonista de GLP‑1
Tirzepatida (Mounjaro) é um agonista duplo (GLP‑1 e GIP)
a retatrutida é um agonista triplo, agindo em três receptores hormonais:
GLP‑1 (glucagon-like peptide‑1)
GIP (glucose-dependent insulinotropic polypeptide)
Glucagon
Esse perfil “triagonista” é apontado pelos pesquisadores como uma possível explicação para as perdas de peso mais altas observadas em comparação com terapias atuais.
De acordo com o Metrópoles, o Mounjaro leva, em média, a 20,9% de redução de peso após 72 semanas de tratamento, percentual inferior ao observado com a retatrutida no TRIUMPH‑4, embora os estudos não sejam diretamente comparáveis por terem populações e desenhos diferentes .
Efeitos colaterais e segurança
O perfil de segurança da retatrutida é semelhante ao de outros análogos de GLP‑1, com predominância de efeitos gastrointestinais. Os eventos adversos mais comuns relatados nos estudos incluem:
Náusea
Diarreia
Constipação
Vômitos
Diminuição do apetite
Segundo o comunicado da Eli Lilly, náusea foi registrada em até 43,2% dos participantes na dose de 12 mg, contra 10,7% no grupo placebo; diarreia em cerca de um terço dos pacientes em altas doses; e constipação em aproximadamente 20% a 25%.
Outro efeito observado foi disestesia (alterações de sensibilidade, como formigamentos), relatada em 8,8% a 20,9% dos participantes em retatrutida, frente a 0,7% no grupo placebo. Em geral, esses episódios foram descritos como leves e raramente levaram à interrupção definitiva do tratamento. As taxas de descontinuação motivadas por efeitos adversos variaram entre 12,2% e 18,2% nas doses de 9 mg e 12 mg, em comparação com 4% no grupo placebo. Matérias da imprensa especializada, chamam atenção para o fato de que parte das descontinuações ocorreu por “percepção de perda de peso excessiva” entre alguns participantes.
Impacto em risco cardiovascular e outras condições
Além da perda de peso e da melhora da dor, o TRIUMPH‑4 mostrou redução em marcadores de risco cardiovascular:
Queda de colesterol não‑HDL
Redução de triglicerídeos
Diminuição de proteína C reativa ultrassensível (PCR‑us)
Redução de cerca de 14 mmHg na pressão arterial sistólica na dose mais alta.
O programa TRIUMPH inclui ainda outros estudos de fase 3, em andamento, avaliando retatrutida em situações como:
Obesidade e sobrepeso com comorbidades
Diabetes tipo 2
Apneia obstrutiva do sono
Osteoartrite de joelho
Dor lombar crônica
Doença hepática gordurosa associada a disfunção metabólica (MASLD/MASH)
De acordo com a empresa, pelo menos sete resultados adicionais de fase 3 são esperados para 2026.
Situação regulatória e próximos passos
No momento da divulgação dos dados, a retatrutida ainda é classificada como medicamento experimental e não está aprovada para uso comercial em nenhum país. A Eli Lilly informou que pretende utilizar os resultados do programa TRIUMPH para embasar pedidos futuros de aprovação regulatória em obesidade e outras indicações, a partir de 2026. Até a conclusão das análises pelas agências reguladoras, o uso da retatrutida permanece restrito a protocolos de pesquisa clínica.







