A menos de uma semana para o início oficial do Carnaval, a alegria e a expectativa já tomam conta dos foliões em Salvador, na Bahia. No entanto, em meio à festa, uma preocupação séria ainda assombra muitas mulheres: o assédio. Felizmente, as autoridades e diversas organizações estão reforçando as ações de combate a essa violência, criando pontos de apoio e campanhas de conscientização nos circuitos oficiais.
A realidade do assédio é, infelizmente, comum. Emily Bispo, uma foliona de 27 anos, conta que já viveu momentos de desconforto na avenida.
“Não foi um assédio de toque físico, mas já ouvi comentários pela roupa que estava usando. Uma coisa que eu nunca fiz foi andar sozinha no carnaval, porque eu tinha medo do que as pessoas poderiam fazer comigo, sabe?”, desabafa Emily.
A experiência de Emily não é um caso isolado. Uma pesquisa de 2025 do Instituto Locomotiva revela dados alarmantes: cerca de 78% das mulheres brasileiras temem passar por situações de assédio durante o Carnaval, e 45% delas já relataram ter sido vítimas. Esses números sublinham a importância de ações concretas para garantir um ambiente mais seguro e respeitoso para todos.
Por que a criação de espaços seguros é tão importante?
Especialistas destacam que o Carnaval, embora seja um espaço de celebração, também pode se tornar um ambiente propício para violências. Darlene Andrade, docente do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher da Universidade Federal da Bahia (UFBA), explica a relevância dos pontos de acolhimento:
“O carnaval é um espaço de ocupação da cidade, mas é também um espaço de muitas violências. As mulheres ficam muito expostas às agressões, ao assédio… É como se a rua não fosse um lugar para as mulheres. O espaço público historicamente foi construído como espaço dos homens, e as mulheres ocupavam os espaços domésticos. Então ter esses espaços de campanha, espaços de acolhimento para mulheres, é muito importante”, avalia a professora. Ela ainda completa que as campanhas de conscientização são cruciais, especialmente para os homens.
Campanhas e Pontos de Acolhimento em Salvador
Para combater o assédio e a importunação sexual, várias iniciativas estão sendo implementadas:
1. Campanhas de Conscientização:
- A campanha nacional de Carnaval 2026 “Se liga ou eu ligo 180”, coordenada com secretarias estaduais e municipais de políticas para as mulheres, vai espalhar materiais digitais e ações visuais em grandes cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Belo Horizonte, Recife, Olinda e Maceió.
- O Governo do Estado, pela Secretaria das Mulheres (SPM), lançou a campanha "Oxe, me respeite!", que garante uma tenda de acolhimento em cada circuito oficial.
2. Redes de Apoio nos Circuitos (Governo do Estado):
Tendas de acolhimento estarão disponíveis para as mulheres que precisarem de suporte:
- No circuito Dodô (Barra/Ondina), o ponto será na Praça das Gordinhas, funcionando das 17h às 5h da manhã, durante os seis dias de folia.
- No Pelourinho, o apoio estará em frente à Câmara Municipal, das 14h às 2h.
- No circuito Osmar (Campo Grande), a Praça do Campo Grande receberá as mulheres, também das 14h às 2h.
3. Programa Alerta Salvador (Prefeitura de Salvador):
A Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres, Infância e Juventude (SPMJ), intensifica as ações de prevenção, conscientização, acolhimento e encaminhamento de mulheres em situação de violência.
- Centros de Atenção à Mulher: Com equipes multidisciplinares na Praça do Campo Grande e na Rua Sabino Silva.
- Canais de denúncia diretos:
- Botão Lilás: (71) 98791-3420
- Casa da Mulher Brasileira: (71) 3202-7390
4. Assistência Jurídica (Ministério Público da Bahia - MP-BA):
A campanha “Tem que respeitar” do MP-BA oferece orientação jurídica e recebe denúncias de assédio, importunação sexual, violência e discriminação. O serviço funcionará 24 horas nos principais circuitos e na sede:
- Circuito Dodô (Barra/Ondina): Avenida Oceânica, em frente ao Teatro Faresi.
- Circuito Osmar (Campo Grande): Praça 2 de Julho.
- Sede do MPBA (Nazaré): Das 8h às 20h.
5. Salas de Acolhimento em Camarotes:
Os principais camarotes dos circuitos também se adaptaram e contarão com salas de acolhimento para suporte às mulheres. A orientação é procurar um funcionário do local em caso de necessidade.
Cristiane Prado, psicóloga de 47 anos que atua há quatro anos em uma dessas salas, considera a medida uma grande conquista:
“Não existia esse olhar sobre a importância de você cuidar não apenas da folia, da brincadeira, mas das situações de assédio, de violência, de preconceito”, comenta. Ela ainda ressalta que as equipes dos camarotes recebem treinamentos especiais para identificar situações e oferecer um atendimento humanizado e profissional, garantindo que as intervenções sejam feitas com sensibilidade e discrição.
Com todas essas ações, o Carnaval de Salvador busca ser um espaço de pura alegria e respeito, onde a segurança das mulheres é prioridade.







