O Ministério Público Federal (MPF) em Alagoas abriu um inquérito para investigar os fornecedores da areia utilizada pela Braskem no processo de fechamento das minas de sal-gema em Maceió. A investigação foi revelada pela coluna "Radar Econômico", da revista Veja, e representa mais um capítulo jurídico no maior desastre de mineração da história recente do Brasil.
A investigação mira a Alagoas Mineração Ltda., com sede no município de Coruripe. O caso está sob a responsabilidade do procurador Lucas Horta de Almeida e partiu de uma denúncia mantida em sigilo. A apuração quer saber se houve fraude ou dano ambiental na extração do material contratado pela petroquímica.
Em março de 2018, um tremor de terra chamou a atenção dos moradores do bairro do Pinheiro, em Maceió. O que parecia um evento isolado revelou um fenômeno silencioso que se desenvolvia há mais de quatro décadas no subsolo da capital alagoana, provocado pela exploração de sal-gema. Estudos oficiais e laudos técnicos comprovaram que a atividade de mineração causou o afundamento progressivo do solo em cinco bairros, levando ao colapso de imóveis, à retirada forçada de milhares de famílias e à ruptura de comunidades inteiras.
A mineração em Maceió é formada por 35 frentes de lavra e, desde 2018, o principal trabalho tem sido o preenchimento gradual dessas cavidades com areia — processo conhecido como backfilling. As cavidades fora da camada de sal estão sendo preenchidas com areia e devem terminar em 2027. Depois, começa o preenchimento das cavidades que estão na camada do sal.
Com o aumento da demanda, várias mineradoras passaram a prospectar o mineral para vender à Braskem, extraindo areia até de Áreas de Proteção Ambiental, como a APA das Dunas do Cavalo Russo, na Praia do Francês, em Marechal Deodoro, e na APA de Piaçabuçu, nas proximidades do Pontal do Peba, na foz do Rio São Francisco, na divisa de Alagoas com Sergipe.
A Braskem não prioriza a transparência no processo de compra do produto e tem recusado revelar os fornecedores, a quantidade adquirida e a origem da areia. Em julho do ano passado, a administração do Porto de Maceió confirmou que a empresa importou cerca de 30 mil toneladas de areia em fevereiro de 2025.
Em 2025, após investigação conduzida pela Polícia Federal, o MPF já havia apresentado denúncia contra a Braskem e 15 pessoas físicas por crimes ambientais, econômicos e contra a administração pública. O novo inquérito sobre os fornecedores de areia soma-se a esse histórico de escrutínio judicial sobre a atuação da empresa.
A subsidência da região atingiu diretamente mais de 14 mil imóveis e levou à remoção de cerca de 60 mil pessoas. Mesmo após o preenchimento das estruturas, o monitoramento deve continuar por décadas. O encerramento operacional não significa o fim do acompanhamento geotécnico da área.
Procuradas pela revista Veja, a Braskem e a Alagoas Mineração não se manifestaram sobre o novo inquérito. A Braskem já havia declarado em outras ocasiões que "reitera seu compromisso com a sociedade alagoana, assim como o respeito e solidariedade para com os moradores afetados", mas informou que só fará pronunciamentos nos autos dos processos.







